Valentin (2002)

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É natural do ser humano procurar sentido nas coisas. Podemos dizer também que é uma reação normal dizer que algo “não tem sentido” mesmo quando somos nós mesmos que não entendemos a lógica desse “algo”. Os chineses e japoneses voadores dos filmes sofrem com isso. Essa “falta de sentido” é frequentemente usada como argumento para crucificar certas obras de arte, principalmente os filmes, como está acontecendo no momento com o Sucker Punch. Após assistir o argentino Valentin, a minha primeira reação foi dizer que o filme não tinha sentido. Parando um pouco para pensar, percebi que poucos filmes fizeram mais sentido para mim do que ele.

Valentin é o nome do filme e do personagem principal, um menino zarolho e inquieto interpretado pelo ator Rodrigo Noya. Valentin mora com a avó paterna, sonha em ser astronauta e sente saudade da mãe que supostamente o abandonou. Ele divide o tempo entre escutar a avó reclamar de saudade do marido que morreu há pouco tempo e torcer para que o pai arrume uma namorada que ele possa chamar de mãe. Valentin, que é um menino bastante maduro para seus 8 anos de idade, não é poupado pelo diretor e enfrenta problemas e dores do mundo adulto, progressivamente deixando o sonho de ser astronauta de lado para “colocar os pés no chão” da dura realidade em que vivemos.

Em 1979, o americano Syd Field escreveu O Manual do Roteiro, um livro que influenciaria profundamente os roteiristas hollywoodianos nos anos seguintes. Syd mostrava como criar roteiros e quais elementos um filme precisava ter para prender a atenção do público. Como tudo tem seu lado bom e seu lado ruim, o estudo dele tanto ajudou muitas idéias a serem melhor aproveitadas quanto contribuiu decisivamente para uma padronização da narrativa cinematográfica: filmes com começo, meio e fim bem definidos, personagens com motivações parecidas e mensagens e/ou lições de moral amarrando finais onde alguém aprendia algo e o bem prevalecia sobre o mal. Valentin pouco ou nada lembra tais filmes.

Quando comecei a assistir, imaginei que ele seria na pegada do O Pequeno Nicolau, um filme que tentaria captar a inocência do mundo infantil. Quando a história avança, percebemos que aquele universo de brincadeiras, sonhos e possibilidades não aplica-se a realidade de Valentin: ele vive em um mundo onde as pessoas são preconceituosas, o pai dele é egoísta e a avó dele está doente.

No O Sentido da Vida, o Monty Python faz piada com a busca por uma explicação que dê sentido à nossa existência. Douglas Adams também aponta o lado cômico dessa busca ao sugerir que a resposta para a vida, o universo e tudo mais seria 42. O diretor Alejandro Agresti (que também interpreta o pai de Valentin) parece querer fugir do pragmatismo do Manual do Roteiro e da tentação de teorizar sobre o sentido da vida. O resultado é um filme repleto de tragédias e de momentos felizes que acontecem sem obedecer uma lógica pré-definida, algo bem próximo daquilo vivemos no nosso dia-a-dia.

Valentin me comoveu profundamente. Recomendo tanto pela oportunidade de ver algo diferente quanto porquê, em sua tentativa de não dar lições de moral, ele acaba tendo um efeito inverso (intencional ou não, não importa) e nos faz pensar bastante.

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  1. Porra, cara… tua resenha é genial… gostei muito do que li.
    Esse filme realmente é muito foda. Me surpreendi ao assistir e me peguei emocionado por diversas vezes. Vale a pena assistir.

  2. Meu sobrenome é Valentim, eu fui criado pela avó e por meu pai pq minha mão faleceu qdo eu tinha 5 anos, DEFINITIVAMENTE vou assistir esse filme!

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