Crime e Castigo (1983)

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Assisti Crime e Castigo, do finlandês Aki Kaurismaki (que também dirigiu esse filme aqui), logo após terminar de ler o livro do Dostoiévski no qual ele foi baseado. O livro é considerado como a magnum opus, a obra prima do autor que, como o Wikipédia define bem, é “considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos”. Desnecessário dizer que seria quase impossível adaptar um trabalho dessa magnitude para o cinema e conservar todos os aspectos que tornaram o livro tão importante, mas mesmo dentro da adaptação que o diretor se propôs a fazer dá para dizer tranquilamente que ele não foi feliz.

Quero deixar bem claro que, mesmo tendo considerado o livro como uma das obras mais importantes que eu já li na vida, assisti o trabalho do Kaurismaki buscando apenas um bom filme com uma história coesa, uma adaptação que preservasse a idéia central do livro. A história que originalmente acontece em Petersburgo é adaptada para uma Helsinki contemporânea, e o personagem principal, o estudante miserável Raskólnikov, agora é Rahikainen, funcionário de um açougue. Em Crime e Castigo, a história desenvolve-se após um assassinato que o personagem comete, no livro ele mata uma velha usurária, no filme é um empresário que escapou de uma acusação de atropelamento seguido de morte. E é na explicação dos motivos do assassinato e nas consequências psicológicas que o ato tem para o personagem que o filme deixa muito a desejar, mesmo para quem não tenha lido o livro.

O que Dostoiévski faz ao longo de quase 600 páginas é mostrar como a lógica e a racionalidade não sobrepõe ou subverte certas questões morais, como crime e castigo estão intrinsecamente ligados no campo psicológico. O filme de Kaurismaki reconstrói e adapta as passagens mais significativas do livro, mas faz isso sem levar essas discussões a fundo, mostrando um personagem que busca vingança, não alguém que está colocando em prática alguma teoria a respeito da sociedade como Raskólnikov faz no livro. O diretor até acena para algumas dessas questões, mas faz isso de forma pouco satisfatória, ele as apresenta como detalhes quando elas deveriam ser o ponto principal da história. No final, o principal mérito do filme, que é apresentar um transgressor que sente-se culpado por seu crime, é apenas o resultado direto da adaptação dos principais momentos do livro. Segundo um amigo que estuda o trabalho do diretor, ele mesmo não gosta do filme e só o fez porque disseram para ele que era impossível adaptar o livro. Aqui percebe-se claramente que a palavra impossível pode ser usada de várias formas.

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