A Possessão do Mal (2014)

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a-possessao-do-malA morte do ator global Domingos Montagner no último dia 15/09 tocou o coração das pessoas de formas diferentes. Houve quem lamentasse a tragédia, houve quem criticasse a superexposição dada ao assunto pela mídia, houve quem tratasse com ironia e soberba os sentimentos alheios e houve até mesmo a galera da teoria da conspiração dizendo que o ator foi assassinado (!!!) por motivos políticos. No geral, nós (sociedade) somos muito ruins e imaturos para lidar com sentimentos negativos. Todo caso, há sempre aqueles que conseguem ir um pouco além nessa ruindade e realizar comentários que desprezam qualquer noção de bom senso e dignidade. Segue abaixo a transcrição exata (preservei os erros de português) de uma mensagem que li no Facebook:

“A morte do ator Domingos mostra mais uma vez que *com Deus não se Brinca* a globo exibi uma novela espirita que exalta a yeshu, e em toda historia coloca satanas como Deus destorcendo palavras. No caso desse ator, cujo nome era SANTO,em varias cenas eram feitos rituais de magia negra, enclusive ouve um momento na novela em que *ele desapareceu* no rio SAO FANCISCO e foi dado como morto, *exatamente como como aconteceu na vida real* afogado pelo msm rio ,chamado na novela como VELHO CHICO conhecidencia? no mesmo rio que em uma cena ele disse *_no rio eu nasci, no rio eu me criei, e no eu vou morrer!_*.COM DEUS NÃO SE BRINCA, e vc que assiste ta participando dando audiencia a algo que não exalta o Deus que servimos ,e dando brechas para que satanas faça o msm que fez com ator, por isso divulguem esse texto e alerte seu irmão que pode nem saber disso assim como vc não sabia!”

Resumindo, o Domingos faleceu porque “brincou com Deus” ao interpretar um personagem que, segundo o autor da mensagem, enganava a audiência com uma alegoria do diabo. CUIDADO: Você pode ter o mesmo destino do Montagner caso continue vendo a novela e dando brecha para o tinhoso agir na sua vida!

a-possessao-do-mal-cena-3Sinto minhas entranhas contorcerem quando leio este tipo de mensagem. Por trás deste tipo de discurso rasteiro, alarmista e maldoso não existe um coração verdadeiramente interessado em viver segundo os ensinamentos de alguma religião, existe apenas um(a) babaca querendo aproveitar-se de uma tragédia para engrossar o chorume diário das redes sociais. Essa ideia absurda de que deus e o diabo estão travando uma batalha por nossas almas, de modo que cada um encontrará aquilo que procurar, só serve mesmo para inspirar roteiros de filmes de terror ruins para adolescentes, como é o caso desse A Possessão do Mal.

Escrito e dirigido pelo cineasta David Jung, o longa conta a história de Michael King (Shane Johnson), um sujeito que vivia uma vida pacata e feliz ao lado da filha e da esposa, Ellie King (Ella Anderson), até o dia em que um acidente de carro deixa-o viúvo. Desesperado, Michael atribui a culpa da tragédia à uma cartomante que havia convencido Ellie a cancelar uma viagem. Segundo ele, se eles tivessem viajado, o acidente não teria ocorrido e sua mulher ainda estaria viva. Para lidar com sua dor, Michael, que é um homem cético e aparentemente ateu, decide gravar um documentário para provar para o mundo que o misticismo ligado ao trabalho das cartomantes, bem como à rituais de magia negra e similares, não passa de uma grande bobagem.

a-possessao-do-mal-cena-2O título original da produção (A Possessão de Michael King), bem como sua tradução infeliz para o mercado nacional, já entregam que Michael “encontra aquilo que ele estava procurando”, ou seja, ele acaba possuído pelas forças obscuras com as quais ele “brincou”. Imaginem a felicidade do autor da mensagem citada acima caso ele assista esse filme e veja confirmadas na tela todas suas teorias espirituais sobre ação e reação rs O fato, porém, é que os eventos mostrados em A Possessão do Mal são pouco conclusivos e dependem bastante das crenças pessoais do espectador para funcionarem ou não.

Sim, Michael acaba “possuído” e faz todas as coisas que Hollywood nos ensinou que pessoas tocadas pelo Belza fazem, como conversar em linguagens desconhecidas, movimentar-se de forma estranha (spider walk!), usar moletom com capuz e automutilar-se. A questão é que ele só faz isso tudo após ingerir uma droga retirada das vísceras de um sapo. Na primeira parte do filme, TODOS os métodos que o personagem testa para comunicar-se com o além acabam falhando e o tom cômico e irônico dessas cenas não deixam de demonstrar um certo desprezo do diretor por coisas como invocações demoníacas, rituais de exorcismo, etc. Para vocês terem uma ideia, Michael paga para um casal de satanistas para que eles mostrem para ele como a doutrina funciona e tudo que ele consegue é ser abusado por dois velhos tarados.

a-possessao-do-mal-cena-4Num segundo momento, o protagonista procura um necromante e é aí que o festival de horrores começa. Além de consumir a tal droga retirada do sapo, Michael tem uns dentes costurados na sua barriga e participa de um ritual de invocação no meio de um cemitério. A polícia invade o local e acaba com a brincadeira, mas aí Michael começa a pirar. Atormentado por um “barulho dentro de sua cabeça”, o personagem vai definhando psicologicamente até o ponto de atentar contra a vida da própria filha. Cenas fortíssimas como uma agulha sendo enfiada debaixo de uma unha e um pentagrama que é desenhado no peito com um pedaço de vidro quebrado completam o pacote podreira de A Possessão do Mal.

Aqui, o diretor David Jung faz dois movimentos. Primeiro ele sugere que forças espirituais (não necessariamente só as demoníacas) não existem, que é tudo bobagem. Depois ele nos mostra que o preço desse ceticismo absoluto pode ser caro demais, mas em momento algum ele é CONCLUSIVO em afirmar que essas forças existem ou não. TUDO que Michael faz na segunda metade do filme pode ser resultado de uma possessão mas também pode ser consequência direta do uso da droga e do estado emocional deplorável em que ele se encontra. O filme em si não é dos melhores: a câmera em primeira pessoa e o tom documental são interessantes, mas a trasheira demoníaca tende a tornar-se cansativa no final.

Pessoalmente, continuo duvidando da existência de um deus vingativo e de um diabo coletor de almas. A única certeza que tenho após ver A Possessão do Mal é que eu nunca deixarei de pagar o parquímetro (quem viu ou for ver o filme entenderá o motivo) rs

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Star Trek: Sem Fronteiras (2016)

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star-trek-sem-fronteirasJá em seu terceiro filme, a vida do reboot da série Star Trek iniciada em 2009 (e seguido em 2013 pelo Além da Escuridão) já pode ser considerada “longa”, mas o que vi nesse Sem Fronteiras me fez questionar sobre o quesito “prosperidade”. Agora comandada pelo diretor Justin Lin, mais conhecido por seu trabalho na série Velozes & Furiosos (o J. J. Abrams, diretor dos dois primeiros, abriu mão dessa sequência para fazer O Despertar da Força), a franquia praticamente não sai do lugar nesse novo episódio, que pode ser resumido como uma sucessão quase ininterrupta de cenas de ação absurdas (no pior sentido da palavra) que faz pouquíssimas adições à história que foi contada até aqui.

Capitão Kirk (Chris Pine) e o Comandante Spock (Zachary Quinto) querem encerrar as atividades à bordo da USS Enterprise. O primeiro, após mais de 2 anos no espaço comandando a espaçonave nas mais variadas missões diplomáticas, sente que perdeu o “senso de propósito” e por isso quer sair. Já o vulcano, que continua brigando com a Tenente Uhura (Zoe Saldana), planeja encontrar uma fêmea para reproduzir e garantir a continuidade da sua espécie após a destruição de seu planeta natal. Sim, REPRODUZIR, porque o Spock continua frio e chatão. Antes de sair, no entanto, a dupla desembarca na impressionante Estação Yorktown e recebe uma última tarefa: acompanhar uma sobrevivente de uma batalha estelar até um planeta distante onde supostamente toda a tripulação de uma nave foi feita refém. Esta missão reafirmará junto aos membros da Enterprise o poder da união e do trabalho em equipe e fará Kirk e Spock repensarem seus desejos de partir.

Desconfiei que esse filme fosse ser ruim (ou pelo menos inferir aos anteriores) desde que vi o nome Justin Lin nos trailers. É certo que resgataram a série Star Trek para transformá-la em um blockbuster para as massas, mas há diferenças conceituais quase inconciliáveis entre o público da ficção científica e aquelas pessoas que pagam para assistir carecas bombados acelerando carros velozes. Temi por essa mistura e pelo direcionamento que seria dado à franquia e, infelizmente, desta vez eu não estava errado: há pouco cérebro em Sem Fronteira.

star-trek-sem-fronteiras-cena-2O roteiro, que é assinado pelo ator Simon Pegg (que interpreta o Scotty aqui), é uma reedição sem brilho daquilo que já havia sido feito no Além da Escuridão. Esquematizando:

  • AdE: Kirk é acusado de irresponsabilidade e quase perde o controle da USS Enterprise/ SF: Kirk cogita deixar o comando da Enterprise.
  • AdE: Spock e Uhura brigam e fazem as pazes no final/ SF: Spock e Uhura… fazem as pazes no final após brigarem.
  • AdE: Sulu (John Cho) assume a Enterprise interinamente (sem golpe) e mostra-se um capitão badass/ SF: Sulu, que revela-se homossexual, continua mais macho do que muito homem quando senta na cadeira de comando.
  • AdE: Doutor McCoy, o Magro (Karl Urban), mete-se em uma enrascada e fica preso numa bomba/ SF: Doutor McCoy fica sozinho com o Spock.
  • AdE: Surge Khan, um antigo membro da Federação que sentiu-se traído pela mesma e transformou-se em um inimigo/ SF: Aparece Krall (Idris Elba), antigo Capitão da Federação que…

… bem, acho que vocês entenderam. Acreditem, as semelhanças não param por aí. Sem pensar muito, ainda dá para falar da adição de uma personagem feminina para a tripulação (antes Carol, agora Jaylah) e, claro, o ataque maciço sofrido pela Enterprise.

star-trek-sem-fronteiras-cena-4Sem Fronteiras tem muitas cenas de ação e a maioria é genérica até não poder mais (tenho certeza que, por exemplo, daqui um mês não lembrarei de nenhum detalhe do confronto Kirk x Krall), mas é preciso render-se à beleza quase operística da queda da USS Enterprise. Atacada por uma legião de aeronaves semelhantes a um enxame de abelhas, a Enterprise desfaz-se diante dos nossos olhos em uma cena impensável, triste e extremamente emocional. É uma pena que, na sequência, o diretor Justin Lin opte por abandonar esse tipo de grandeza característica da série para investir na adrenalina tosca que dita o ritmo da maioria dos Velozes & Furiosos. Kirk acelerando uma moto através de um terreno pedregoso com a mesma facilidade de quem passeia por uma avenida no final de semana? Façam-me o favor… (observem também o PÉSSIMO efeito especial utilizado nessa cena, vergonha total)

star-trek-sem-fronteiras-cena-3Em suas lamentações sobre ter distanciado-se dos motivos que levaram-no a ingressar na Federação, Kirk diz que a vida no espaço tornou-se “episódica”, como se tudo fosse previsível e até mesmo entediante. Eu te entendo, Kirk. Foi exatamente assim, aliás, que me senti enquanto assistia Sem Fronteiras, como alguém que vê um episódio de uma série qualquer onde um vilão é derrotado sem que nada de muito relevante ocorra para mudar o curso geral da história (dentre os fã de anime, tais episódios até receberam um termo: filler). Gosto demais de Star Trek para encará-lo assim, como mero entretenimento descartável conduzido por um diretor de testosteronas totais. Espero sinceramente que o J. J. Abrams retorne ao comando da franquia e aproveito a oportunidade para deixar aqui meu pesar pela morte prematura do ator Anton Yelchin, que faleceu aos 27 anos vítima de um acidente de carro. Nasdrovia, pequeno grande Chekov!

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Barry Lyndon (1975)

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Barry LyndonVocês conhecem a série The Works? Editada pelo Joel Walden, ela reúne momentos antológicos de filmes de grandes diretores como Stanley Kubrick, Steven Spielberg e Martin Scorsese. Acreditem, vale muito a pena clicar ali e gastar alguns minutos da sua vida com as compilações espetaculares do cara.

Foi através dessa série que eu vi as primeiras imagens desse Barry Lyndon. Lá, no meio de cenas memoráveis do Laranja Mecânica e 2001, estava um sujeito bem vestido caminhando através de cenários bucólicos. Posteriormente, o mesmo personagem aparecia participando de uma batalha campal e trocando sopapos com um soldado. Confesso que, com base nessas cenas, não tive muita vontade de assistir Barry Lyndon: mesmo sendo fã do Kubrick, não consegui me enxergar divertindo com um filme que parecia explorar aspectos do quase sempre enfadonho mundo da aristocracia. Assim sendo, coloquei o longa para rodar mais para explorar a filmografia do diretor do que porque eu estava com vontade de vê-lo. Como quase sempre acontece nessas situações, as expectativas baixas (ou até mesmo negativas) ajudaram-me a apreciar o material, que realmente é ambientado em uma época longínqua da nossa mas que trata de assuntos atuais, trágicos e até mesmo engraçados.

As mais de 3 horas de Barry Lyndon são divididas em duas partes. Na primeira, vemos como o jovem Redmond Barry (Ryan O’Neal) adquiriu o nome que dá título ao filme e depois acompanhamos os infortúnios e desastres que caem sobre o personagem após ele ingressar no mundo da nobreza. É uma história de ascensão e queda contada com uma narração irônica que casa perfeitamente com o tom tragicômico do roteiro.

barry-lyndon-cenaTal qual todo jovem, Redmond Barry quer garantir seu espaço nesse mundão velho sem fronteira. Inexperiente, ele apaixona-se por sua prima, uma mulher fogosa que troca de amantes com a mesma frequência que eu e você trocamos de roupa. Quando a tal prima resolve abandonar Barry para casar-se com um militar velho e rico, o personagem decide que chegou o momento de firmar-se como homem e desafia o sujeito para um duelo. Ao vencedor, o amor da sirigaita, o orgulho e a glória. Ao perdedor, o gosto do chumbo, o sangue e a morte. Barry ganha, mas o crime cometido contra um oficial do exército obriga-o a abandonar o conforto não tão confortável de seu pobre lar e fugir.

A primeira parte de Barry Lyndon pode ser resumida em “como um filho da puta mentiroso e arrogante conseguiu vencer na vida”. Papo muito sério que não dá para sentir empatia pelo personagem. Se já é horroroso ver o cara comportar-se igual uma criança birrenta quando perde um amor que nunca foi dele (Barry joga uma taça de vinho na cara de seu rival no meio de um jantar rs), é pior ainda ver todos os artifícios ardilosos que ele utiliza durante a fuga para driblar a justiça, tornar-se uma pessoa importante e, finalmente, alcançar a glória com um casamento promissor. Todo mundo conhece, seja no trabalho, na escola ou na família, um sujeito mentiroso e puxa saco que não mede esforços para conseguir o que quer. Redmond Barry é assim e é dessa forma que ele encontra seu lugar ao sol.

barry-lyndon-cena-2O conhecido perfeccionismo do Kubrick com elementos como enquadramento e iluminação dão beleza à trajetória desse crápula, que enfrenta uma série de aventuras (assalto na estrada, guerras, deserção do exército e uma tour ao lado de um libertino pelos salões de jogos europeus) antes de conhecer a bela e melancólica Lady Honoria Lyndon (Marisa Berenson), aristocrata rica com a qual ele casa e da qual ele empresta o nome, tornando-se Barry Lyndon e dando início a segunda parte do filme.

Independente de qualquer coisa, é preciso reconhecer que Barry Lyndon é um vencedor. Além de ganhar o duelo no começo do filme e de arrebentar um bufão do exército na pancada em uma luta brutal, Barry, que nasceu pobre e sem pai, consegue utilizar sua lábia e força de vontade para transcender sua condição social em uma sociedade extremamente hierarquizada. Palmas pra ele. O “porém” que faz de Barry Lyndon uma história extremamente irônica é que o personagem vence apenas para transformar-se em tudo aquilo que ele menosprezava, sendo destruído moralmente no processo.

barry-lyndon-cena-3Os benefícios sociais e financeiros que Barry adquire após o casamento fazem ele comportar-se como o próprio capiroto. Além de bater no enteado e trair a esposa abertamente, o personagem consome quase toda a fortuna da família para tentar adquirir um cargo junto à nobreza, o que garantiria-lhe estabilidade até o resta da vida. Como um câncer, Barry destrói tudo e todos ao seu redor para satisfazer suas próprias vontades e, nesse processo, acaba sofrendo uma perda irreparável que torna inúteis todos os seus esforços que ele fizera para alcançar a felicidade. No ápice do filme e de sua decadência, o personagem encara um novo duelo e é aí que a situação inverte-se deliciosamente: Barry, agora um velho defensor do status quo, precisa defender a vida contra um jovem impetuoso que deseja tomar o seu lugar. Parece que o jogo virou, não é mesmo, Barry Lyndon?

Barry Lyndon não é tão chato quanto eu havia pensado, mas é um filme que exige paciência para ser assistido devido à sua duração e também à sua proposta, que é desenvolver um personagem e uma ideia pouco acalentadora (todo o mal que tu fizer retornará para você). Todo caso, é um filme do Kubrick, o que torna-o uma obra cinematográfica obrigatória para os fãs de cinema e que garante beleza visual e poética até mesmo em coisas bizarras como um menino sendo atropelado por um cavalo.

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Warriors – Os Selvagens da Noite (1979)

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Warriors - Os Selvagens da NoiteFui intimado por um amigo  a assistir esse filme sob pena de perder o respeito dele caso eu não o fizesse. Eu sabia que tratava-se de um clássico cult (não é difícil encontrar imagens dele estampadas em camisetas e outras bugigangas com temática de cinema) e já havia programado vê-lo em algum momento, mas tive de adiantar meus planos depois do cara dizer, com uma passionalidade que lhe é bastante característica, que eu “poderia encerrar as atividades do blog caso não escrevesse um texto sobre o Warriors“. Às vezes, tudo que a gente precisa para sentir-se motivado é uma ameaça infantil descabida, então aqui está sua resenha, Sr. Sandoval rs

Baseado na Batalha de Cunaxa, evento ocorrido 401 anos a.C. em que soldados gregos foram encurralados pelo exército persa, Warriors – Os Selvagens da Noite mostra como uma gangue de Nova York abriu caminho através de território extremamente hostil em uma noite em que tudo deu errado. Convocados por Cyrus (Roger Hill), uma espécie de messias que sonha em unir todas as gangues da cidade para lutar contra o governo, os Warriors comparecem numa reunião onde o impossível acontece: após um discurso lutherkingiano, Cyrus é assassinado na frente de todos. Um membro de um grupo rival coloca a culpa da morte nos Warriors e é aí que o grupo, que é liderado pelo explosivo Swan (Michael Beck), precisa fugir da polícia e das outras gangues para conseguir retornar para casa.

Precisei de apenas 15min para compreender a essência da “aura cult” que envolve o filme, que é assinado pelo diretor Walter Hill. Além da violência física e sexual que faz do longa um típico produto da Hollywood sombria e niilista da década de 70, Warriors está cheio de personagens e diálogos cuidadosamente pensados para tornarem-se inesquecíveis. Aqui você encontrará, por exemplo, uma gangue de jogadores de baseball usando maquiagens parecidas com a do Kiss. Aqui, você ouvirá um cara anunciar que “enfiará um taco na bunda do outro e o transformará em um pirulito”. Não dá pra esquecer esse tipo de gente e de ofensa. O filme também demonstra personalidade e ganha pontos no quesito “estilo” devido à edição, que utiliza páginas de quadrinhos para fazer transições de cena e de cenários.

Warriors - Os Selvagens da Noite - Cena 4Personagens legais, visual bacana e frases de efeito, porém, não são suficientes para tornarem um filme bom. Bastasse a simples união desses elementos para emplacar um sucesso, o Esquadrão Suicida seria divertidão, mas ele não é. O que faz de Warriors uma aventura digna de ser lembrada e recomendada com empolgação (e agressividade rs) é a narrativa objetiva e fluída e as muitas boas cenas de ação filmadas pelo diretor. Tão logo o grupo foge da reunião, inicia-se uma correria e um clima de “vai dar merda” que só acaba na última cena. Há confrontos no metrô, no parque e nos muitos becos escuros da cidade de Nova York, que é mostrada como um lugar sujo e sombrio completamente tomado por poderes paralelos ao estado. As lutas, mesmo para os padrões atuais, são MUITO violentas e extremamente gráficas, com a câmera do diretor mostrando em detalhes escandalosos coisas como alguém tendo o rosto chutado e atingido por pedaços de madeira. Hill dosa com perfeição o texto sobre um cenário futurístico onde as pessoas recorrem à violência e as gangues como forma de sentirem-se parte da sociedade com as cenas de pancadaria, de modo que a história nunca torna-se maçante ou pouco cerebral. Destaco ainda a narração dos eventos que é feita por uma locutora de rádio, recurso divertido que me lembrou de outro clássico setentista, o Corrida Contra o Destino (que rendeu esse remake horroroso).

Warriors - Os Selvagens da Noite - Cena 2Warriors provocou um barulho enorme quando foi lançado. Na página de curiosidade do filme no IMDB, é possível ler, por exemplo, que precisaram mudar o poster original por ele ser considerado “ultrajante” por muitas pessoas (havia frases nele que diziam que os marginais eram mais numerosos que os policiais e que eles poderiam dominar a cidade) e que membros de gangues reais ameaçaram a equipe de produção tanto por eles não terem sido convidados para as filmagens quanto pela forma como eles foram retratados no filme. Por tudo o que foi falado até agora, acho que vocês já entenderam que trata-se de um filme referência, desses que podemos classificar como “obrigatórios” tanto para críticos quanto para fãs de cinema, né? Resolvida esta questão e reconhecido que a bronca do meu amigo não foi totalmente injusta (Obrigado, Sandoval! rs), permitam-me finalizar este texto com um desabafo.

Warriors - Os Selvagens da Noite - Cena 3Não tem sido fácil manter o blog atualizado. Por conta de uma série de problemas pessoais e do excesso de serviço (em alguns dias, tenho trabalhado quase 15 horas), tenho achado difícil encontrar tempo e inspiração para escrever. Para vocês terem uma ideia, tem mais de uma semana que assisti Warriors e, mesmo tendo adorado a estética visual do filme e todo o comentário social que ele faz, só hoje consegui reunir fôlego para digitar este texto. Quem acompanha o blog desde o início sabe que não é a primeira vez que uso este espaço para reclamar de cansaço (e sei que ninguém vem aqui ler isso), mas sinto-me na obrigação de jogar limpo com os leitores, visto que respeito-os e temo não estar conseguindo escrever textos tão bons e divertidos como aque fazia no passado. Sei que, assim como não é fácil encontrar tempo para escrever, também não é fácil parar a correria do dia a dia para ler um texto de 800-1000 palavras, então sinto-me decepcionado quando penso que o blog, além de estar perdendo em quantidade, também não está mais oferecendo qualidade. Todo caso, não pretendo parar: amo cinema, amo escrever e há quase 6 anos divido essa paixão com vocês. Tenham um pouco de paciência comigo nos próximos meses, ok? Aos poucos as coisas voltarão ao normal🙂

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Jason Bourne (2016)

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Jason BourneO Legado Bourne, tentativa de revitalizar a série Bourne no cinema após suas principais estrelas (o ator Matt Damon e o diretor Paul Greengrass) recusarem-se a realizar um quarto filme da franquia, não foi exatamente um longa ruim, mas é notório que houve pouca coisa na aventura do Aaron Cross (Jeremy Renner) capaz de empolgar os fãs antigos da série. Mesmo com uma recepção morna, porém, Cross deve ganhar uma segunda chance de cair nas graças do público em alguma data entre 2018 e 2020, mas é seguro dizer que o que todo mundo queria ver mesmo era a continuação direta dos eventos do já longínquo O Ultima Bourne (2007), que terminava com o Jason (M. Damon) escapando vivo após revelar para o mundo os detalhes obscuros das operações Treadstone e Blackbriar.

Cientes desse anseio dos espectadores, a Universal Pictures conseguiu trazer a dupla Greengrass/Damon de volta à franquia para expandir aquele mundo de espionagem e conspirações governamentais criado pelo escritor Robert Ludlum. O roteiro de Jason Bourne (que, ao contrário daqueles vistos na trilogia original, foi escrito exclusivamente para o cinema e não possui correspondente literário) é relativamente simples quando comparado com tudo o que foi feito anteriormente, mas ainda assim o talento do Greengrass para conduzir cenas de ação tensas e empolgantes garante um boa sessão e faz deste filme uma continuação para a série melhor e mais interessante do que aquela vista no Legado.

Jason Bourne - CenaO tempo passou e o cabelo do Bourne começou a ficar grisalho, mas, felizmente, não vemos aqui uma história de decadência física tal qual aquela bobagem que fizeram no Skyfall. A cena que abre o filme, aliás, serve justamente para mostrar que o personagem continua tão forte e letal quanto antes: numa rebimboca qualquer do mundo, vemos ele apagar um grandalhão com apenas um soco numa briga de rua. Depois de expor o governo americano, Jason queria passar o restante de seus dias no anonimato, mas informações obtidas por sua antiga parceira Nicky Parsons (Julia Stiles) revelam não somente que a Treadstone era apenas uma dentre tantas outras operações ilegais do governo quanto apontam novos detalhes sobre o passado do personagem.

Jason Bourne é isso, um filme repleto de novas cenas de pancadaria e perseguições de carro no qual nos contam um pouco mais sobre a vida do herói enquanto ele ainda chamava-se David Webb. Até então, imaginávamos que o personagem havia voluntariado-se para o projeto Treadstone (revelação que é feita no final do O Ultimato Bourne), mas não foi exatamente isso que aconteceu. Os dados descoberto por Nicky ajudam Jason a lembrar-se do pai em um triste episódio que foi fundamental para que ele aceitasse transformar-se em uma máquina de matar. O problema é que esses dados também sugerem que esse episódio foi armado por agentes da CIA para enganá-lo. É claro que o cara não deixará pedra sobre pedra até encontrar e punir os responsáveis pelo embuste.

Jason Bourne - Cena 3O diretor Paul Greengrass, que também escreveu o roteiro, até tenta trazer alguns elementos contemporâneos para enriquecer a história e torná-la atual (a questão da privacidade dos dados de usuários de internet, por exemplo, é uma clara referência a megacorporações como a Apple), mas a grande verdade é que Jason Bourne apenas requenta tudo aquilo que já havíamos visto e aprovado anteriormente ao longo da série. Um personagem importante é alvejado e morto por um tiro de sniper (A Supremacia Bourne), há uma perseguição fantástica/impossível de moto (O Legado Bourne), a figura do homem mauzão chefe da CIA (Tommy Lee Jones) contrapondo uma personagem feminina idealista (Alicia Vikander) na caça ao personagem (A Supremacia/ O Ultimato Bourne) e, claro, um assassino (Vincent Cassel) tão bom quanto o protagonista perseguindo-o durante toda a trama (A Identidade Bourne/A Supremacia). Essas semelhanças associadas a flashbacks e ao resgate de cenários reconhecíveis pelo público, como a tomada aérea da base da CIA em Langley, provocam no espectador aquele sentimento nostálgico de quem retorna para casa, mas não dá para deixar de lado o fato de que, na verdade, não é a primeira vez que estamos vendo aquele material.

Jason Bourne (2016)As cenas de ação são muito legais, daquelas que tu nem pisca para não perder o frenesi de destruição provocado pelos personagens, mas, apesar de funcionais, elas não tem o mesmo brilho daquelas vistas principalmente no A Supremacia Bourne. Lembram do Matt Damon usando uma revista (!!!) para detonar um vilão em uma luta espetacular e com pouquíssimos cortes da câmera dentro de uma casa? Não tem nada parecido com aquilo aqui. O Greengrass, que virou referência no gênero ação justamente pelo seu trabalho minucioso na série, parece ter rendido-se aos cortes vertiginosos e agora mostra tudo em ritmo acelerado e pouco compreensível. A imaginação do cara continua boa (precisa de muita criatividade para fazer uma perseguição de carro terminar dentro de um cassino rs) mas a técnica já foi bem melhor.

Jason Bourne é uma colcha de retalhos nostálgica de tudo o que a série fez até aqui. Poderia ter sido melhor executado? Sim. O roteiro poderia ser melhor elaborado? Sim, também poderia, mas, por ora, permitirei-me ficar feliz com o retorno do Matt Damon para o seu papel mais icônico e com o aparente reinício da franquia. Para um próximo filme, porém, espero algo que faça jus ao título de “inovadora” que a série sempre evocou.

Jason Bourne - Cena 4

Esquadrão Suicida (2016)

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Esquadrão SuicidaPor mais difícil que seja, é preciso reconhecer a verdade: Esquadrão Suicida é ruim. No máximo, com muito amor no coração, dá pra dizer que ele é mediano, um 5/10, mas bom ele não é. Não estou dizendo isso porque eu “gosto dos filmes da Marvel”. Não estou dizendo isso porque os “trailers vendiam um filme e entregaram outro”. Enfim, não estou dizendo isso para contribuir com o “sepultamento” que o filme está recebendo em alguns cantos da internet. Não gostei de Esquadrão Suicida porque achei-o mal feito, rasteiro e sem personalidade e, neste texto, explicarei-lhes o porque da avaliação negativa.

Antes de começar a resenha, porém, faço-lhes um pedido: vão ao cinema, vejam o filme e, só depois, voltem aqui para trocarmos uma ideia. Digo isto tanto porque utilizarei SPOILERS abaixo quanto porque não quero que a minha experiência substitua a sua. O papel da crítica cinematográfica, acredito, não é afastar o público das salas de projeção nem mudar a opinião de ninguém, mas sim ajudar o espectador a enriquecer suas próprias impressões acerca daquilo que ele mesmo viu. Concordar ou discordar do crítico é apenas uma consequência caso tu conheça o assunto tratado, mas é fundamental que tu conheça o assunto para que haja diálogo, certo?🙂

Esquadrão Suicida chega aos cinemas depois de O Homem de Aço e Batman vs Superman com a tarefa de 1) ampliar o chamado Universo Estendido da DC, apresentando um novo grupo de heróis/vilões e 2) conectar as produções anteriores e plantar links para os próximos lançamentos da DC Comics. Ao meu ver, nenhuma das duas propostas foram desenvolvidas satisfatoriamente, mas é principalmente as falhas da primeira (apresentar os personagens) que faz o filme do diretor David Ayer afundar.

Esquadrão Suicida - Cena 4O fato de um alienígena extremamente poderoso como o Superman ter escolhido a Terra para viver colocou nossas autoridades em estado de alerta. Temendo que o kryptoniano volte-se contra os humanos ou que a presença dele aqui atraia novas criaturas hostis como o General Zod e o Apocalypse, a agente Amanda Waller (Viola Davis) propõe ao governo norte americano a criação de um grupo secreto de pessoas com habilidade extraordinárias (os chamados meta-humanos) para defender-nos em situações de emergência. Até mesmo pela característica “suicida” dessas missões, Amanda sugere que os membros do grupo sejam recrutados nas prisões, visto que, na visão fria e pragmática dela, vilões condenados são “descartáveis”. É assim que nasce o Esquadrão Suicida, uma equipe de desajustados fora da lei comandada pelo soldado Rick Flag (Joel Kinnaman).

Tão logo Amanda consegue formar sua equipe de vilões, surge uma ameaça para colocar à prova as habilidades dos personagens. Enchantress, uma entidade ancestral que habita o corpo da pesquisadora June Moone (Cara Delevigne), sai do controle e inicia um plano de dominação global. É assim que o Esquadrão Suicida, que é formado por Arlequina (Margot Robbie), Deadshot (Will Smith), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Diablo (Jay Hernandez), Killer Croc (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e Slipknot (Adam Beach), bem como Katana (Karen Fukuhara), guarda costas de Rick Flag, entra em ação para evitar o pior.

Esquadrão Suicida - Cena 3Filmes de origem, desses que precisam contar a história dos personagens antes de colocá-los para quebrar o pau, são sempre complicados de se fazer. Para que esse tipo de longa dê certo e consiga estabelecer laços emocionais com o público, é preciso que o roteiro dedique tempo suficiente para desenvolver as relações pessoais dos personagens (motivações, família, amigos, inimigos), de modo que, quando a pancadaria começar, tu veja na tela não um zé mané qualquer com um uniforme no meio de uma infinidade de efeitos especiais, mas sim aquele cara legal cuja história tu conheceu e afeiçoou-se desde o início da projeção. Não é isso que acontece em Esquadrão Suicida.

Tão logo o filme começa, vemos a Amanda Waller em um jantar defendendo seu projeto de super grupo para o governo. Durante uns 15 min (?), ela apresenta cada um dos vilões, falando de suas habilidades e de seu passado no crime. Esta cena, além de ser rápida e acompanhada por textos explicativos impossíveis de serem lidos na totalidade (pisque e tu perderá informações importantíssimas, como aquela que fala do assassinato do Robin, por exemplo), ainda precisa cumprir o papel de linkar o filme com as futuras produções da DC (o Flash e o Batman aparecem por aqui). O ritmo é tão acelerado e o background dos vilões é tão superficial que, quando o tal Slipknot morre após uma tentativa de fuga, a única coisa que eu consegui pensar foi “foda-se”. A matemática, nesse caso, é implacável: quanto mais personagens tu tiver, mais tempo tu precisa investir para desenvolvê-los. Não fazer isso é o primeiro passo para criar um produto genérico.

Esquadrão Suicida - Cena 6Esse defeito é corrigido durante o filme? Parcialmente. Anunciados como as grandes estrelas de Esquadrão Suicida, a Arlequina e o Coringa ganham muitas cenas de flashback para explicar como começou e desenvolveu-se o romance obsessivo deles, tanto que a gente realmente passa a importar-se com o destino dos personagens. O resultado também é satisfatório para o Deadshot do Will Smith, que rala bastante para conseguir protagonizar o longa (não é fácil competir com uma dupla de loucos coloridos) com sua história de devoção à filha. O restante dos personagens não recebe a mesma atenção e parece estar ali só para fazer volume, sofrendo para conseguir uma ou duas frases de efeito e para emplacar suas próprias esquisitices. A ideia do unicórnio cor de rosa do Capitão Bumerangue, por exemplo, não rende nem a metade do que poderia render.

O grande problema desse Universo Estendido da DC parece ser justamente esse: eles não estão interessados em gastar tempo e filmes para nos mostrar como as coisas começaram. O Capitão Bumerangue? Ele é aquele cara lá que rouba as coisas e que foi preso pelo Flash. Como? Quando? Eles explicam tudo isso em um flashback de 15seg. O Batman tem 20 anos de lutas contra o crime, o Robin foi morto pelo Coringa e pela Arlequina… Isso tudo aconteceu em histórias que não vimos e das quais só ouvimos falar em diálogos e referências plantadas nos cenários. Ao que parece, a DC não quer perder o bom momento para filmes de super heróis e está tentando acelerar a adaptação de seu universo para os cinemas. Achei compreensível eles pularem a origem do Batman no Batman vs Superman (eles poderiam contar essa história no já anunciado filme solo do morcegão), mas não dá para entender o motivo dessa pressa com o Esquadrão Suicida: poderiam ter feito um filme legal misturando humor, cenas de ação fantásticas e um pouco de violências, tal qual o Guardiões da Galáxia, mas preferiram realizar uma espécie de vídeo clipe tosco onde a história dos personagens fica em segundo plano para dar espaço para um romance hiper colorido embalado por músicas de forte apelo popular (quem não gosta de Bohemian Rhapsody?).

Esquadrão Suicida - CenaConsigo até imaginar um reunião dos executivos da DC onde foi dito o seguinte: “Como o marido da Katana morreu? Por onde o Killer Croc andou? Não importa, explicamos isso em um diálogo. Acrescenta mais um close da bunda da Arlequina aí ou coloca ela para falar algo insano com AQUELE sorriso. Ah, coloca o Batman também. O Batman é legal.” Esquadrão Suicida é uma colagem de coisas potencialmente legais que, sem contexto, não funcionam e soam gratuitas. Peguemos, por exemplo, aquela cena do trailer onde a Arlequina rouba uma joia de uma vitrine. Legal o derrière, legal a fala, mas ela não acrescenta NADA para a história. Vi a mesma falta de propósito na referência ao Watchmen (o smile dentre da vitrine), na Arlequina quebrando o pau dentro do elevador (pra quê?) e na cena do Coringa deitado e rindo no meio de um círculo de facas: tudo muito legal, tudo muito bonito, mas completamente desnecessário.

A trilha sonora é uma das melhores dos últimos anos, as atuações do Jared Leto e da Margot Robbie (nunca duvidei deste Coringa) estão desgraçadas de boa e o Deadshot é um bom personagem, mas a real é que este filme é composto de uma única, gigantesca e  genérica cena de ação (encontrem a Enchantress, matem a Enchantress) com um monte de personagens esquecíveis e sem personalidade. Aparentemente, não era para ser assim. Notícias que podem ser lidas em sites especializados dizem que, tal qual aconteceu no Quarteto Fantástico, a direção do David Ayer sofreu diversas intervenções. Muito material que ele gravou para desenvolver os personagens (coisas como aprofundar o relacionamento do Flag com a June, por exemplo) ficou de fora do corte final para dar lugar para piadinhas cretinas (aquela do ‘limpar o histórico de navegação’ foi sofrível) e para colocar mais cenas de ação. O fato do público ter torcido o nariz para o lado sombrio do Batman vs Superman, pelo visto, foi preponderante para que esse filme mudasse de tom e mostrasse não o que o diretor preparou, mas sim o que o “espectador médio” queria ver: piadas, romance e explosões. Que bosta.

Esquadrão Suicida - Cena 5Repetindo o que eu disse no texto do A Origem da Justiça, a Marvel gastou pelo menos 6 filmes antes de reunir os Vingadores. Mesmo em longas menos inspirados, como o primeiro do Thor, eles fizeram o dever de casa: contaram a origem do personagem, apresentaram o mundo dele, a família, os inimigos, etc. A gente vai no cinema e pira com produções como o Guerra Civil porque a gente sabe da trajetória daqueles personagens, porque a gente já viu eles conversando e lutando antes. Ou a DC adota a mesma fórmula e tira o pé do acelerador ou ela está correndo o sério risco de perder toda a credibilidade junto ao público que realmente gosta de cinema e de quadrinhos e que conhece aqueles personagens e sabe o que eles podem render. Não dá para desperdiçar atuações como a do Leto e da Robbie num filme ruim desses, não dá para continuar apenas falando de personagens e acontecimentos que eles ainda não mostraram, não dá para colocar o Batman em uma cena pós crédito falando da Liga da Justiça e achar que, com isso, tu irá motivar o público a voltar ao cinema para ver outra história ruim. Se a editora for esperta, dessa vez ela ouvirá as críticas certas (ter um ‘tom sombrio’, nem de longe, é um defeito) e repensará a condução do seu universo cinematográfico. Torço para que isso aconteça.

Esquadrão Suicida - Cena 2

Um Dia Perfeito (2015)

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Um Dia PerfeitoEm 2010, quando fui para São Paulo participar do 5° Festival de Cinema Latino-Americano, fiquei hospedado em um hotel próximo da Av. Paulista. Sempre que eu saía do local para ir ao metrô ou para pegar o ônibus, eu passava em frente ao Cine Belas Artes e invejava profundamente os paulistas por terem um lugar tão bacana como aquele disponível na cidade deles. Até onde pude entender naquela ocasião, o Belas Artes exibia apenas filmes fora do circuito comercial. Gosto de blockbusters, mas também gosto dos chamados “filmes alternativos”, produções que raramente entram na grande de programação das redes de cinema tradicionais (como o Cinépolis e o Cinemark) por conta de seus temas ou gêneros de pouco apelo junto ao público ocasional.

Na ocasião, absorvido pela programação do Festival, não consegui converter a minha admiração pelo cinema em tempo para comprar um ingresso e conhecer o local, mas mentalmente prometi pra mim mesmo que um dia eu ainda voltaria lá para viver aquela experiência. Foi com um grande pesar, portanto, que recebi a notícia, em 2011, de que o Belas Artes havia fechado as portas por falta de patrocínio. Além de desenvolver uma atividade que não visa exclusivamente o lucro, o terreno do cinema, que está localizado em uma região nobre de São Paulo (cruzamento da Rua Consolação com a Av. Paulista), era alvo constante de especulação imobiliária e mantê-lo funcionando sem patrocínio tornou-se impraticável.

Gosto de acreditar que, no fim, o bem sempre triunfa (essa mensagem, aliás, é o que dita o ritmo deste divertido Um Dia Perfeito, filme que, prometo, já já eu vou comentar rs), e foi com uma sensação pessoal de vitória que, no último dia 30/07, eu finalmente consegui ver um filme no Belas Artes. Ué, mas ele não foi fechado? Foi sim, mas, graças à mobilização dos fãs, de empresários e do poder público, o local foi reaberto em 2014, desta vez patrocinado pela Caixa Econômica Federal. Foi assim que, ao lado das melhores companhias (minha esposa e o amigo Antônio Carlos, que é formado em cinema e me ensinou muito do que sei sobre o assunto), eu encerrei as minhas férias com chave de ouro realizando um sonho antigo de cinéfilo.

Um Dia Pefeito - Cena 4Não foi fácil escolher algo para ver, mas até essa “dificuldade” foi gostosa. Em cartaz, estavam pelo menos uns 5 filmes dos quais eu não havia ouvido falar absolutamente nada, ou seja, todos eles ofereciam infinitas possibilidades de novas descobertas. Eu estava bastante disposto a assistir um lá que, ao que tudo indicava, falava sobre o relacionamento entre duas jovens, tema importante e atual, mas acabei optando por esse Um Dia Perfeito devido a presença do Tim Robbins no elenco, ator que sempre foi meu “porto seguro”, cinematograficamente falando, desde que vi-o no Um Sonho de Liberdade.

O filme traz um recorte temporal de aproximadamente um dia na vida de um grupo de trabalhadores humanitários numa zona de conflito nos Bálcãs durante da década de 90. Liderados por Mambrú (Benicio Del Toro), os personagens precisam lidar com uma série de problemas cotidianos para garantir a manutenção dos acordos de paz que órgãos internacionais como a ONU estão negociando para a região.

O contexto político e social da guerra é deixado em segundo plano pelo diretor e roteirista espanhol Fernando León de Aranoa, que prefere focar nas relações humanas entre os personagens, explorando seus medos, sonhos, discordâncias e amores numa situação de exceção. Quando o grupo encontra o corpo de um homem morto jogado dentro de um poço, eles precisam agir rapidamente para que o cadáver não contamine a água e prejudique a população do local. O que parecia ser uma operação rotineira, no entanto, acaba tornando-se uma verdadeira epopeia quando a única corda que eles tinham para retirar o corpo arrebenta devido ao peso do morto.

Um Dia Pefeito - CenaMambrú e B (Tim Robbins), veteranos naquele tipo de serviço, sugerem uma solução pragmática para o problema: ir até um mercado próximo, comprar uma corda nova, retornar ao local e retirar o corpo. Fim da história. Acontece, porém, que eles estão subordinados aos militares em exercício na região, e os militares, temendo que a retirada do corpo possa provocar mais conflitos entre a população local, ordenam que eles deixem o poço exatamente como ele estava. Mambrú e B acatam as ordens, mas o mesmo não acontece com Sophie (Mélanie Thierry). Jovem e sonhadora, ela discute com os soldados e convence o restante do grupo a prosseguir com a procura pela corda. Completando o time, há ainda o caladão Damir (Fedja Stukan), um homem que trabalha como tradutor e que prefere não envolver-se mais do que o necessário naquele conflito, e Katya (Olga Kurylenko), ex-namorada de Mambrú que é enviada até o local para determinar a necessidade do grupo continuar trabalhando por lá.

Um Dia Pefeito - Cena 3Aranoa contrapõe o idealismo ao comodismo para nos fazer pensar (eu, que sempre fui partidário de tomar iniciativa o tempo todo, ultimamente tenho percebido que, ás vezes, é bastante válido simplesmente não fazer nada e deixar as coisas seguirem seu curso natural), mas o faz de forma bem leve, tanto que Um Dia Perfeito, apesar de seu tema envolvendo conflitos de guerra, está mais para uma comédia do que para um drama. A tensão entre Mambrú e Katya, bem como a seriedade de Damir, garante umas boas risadas, mas o humor que sobressai é mesmo o do Tim Robbins. Sei que sou suspeito para falar, visto que já declarei abertamente o meu amor pelo trabalho dele, mas o cara está simplesmente sensacional no papel de tiozão porra louca. Robbins, com um sorrisão no rosto, faz coisas insanas como acelerar com o jipe rumo a uma vaca que pode esconder uma mina terrestre e, cena após cena, faz piadas pontuais com todos os personagens, das quais a melhor talvez seja aquela em que ele brinca com o fato de Damir carregar fotos da namorada pelada na carteira.

Um Dia Perfeito, que conta ainda com um trilha sonora cheia de músicas de rock e com uma fotografia acima da média, foi perfeito para coroar o término das minhas férias, para eu conhecer o Belas Artes e também para que eu pudesse repensar uma ou duas coisas sobre responsabilidades e esforços desproporcionais. Regresso agora para a rotina do dia a dia feliz por tudo que vi e vivi nas últimas semanas, ansioso para continuar descobrindo e compartilhando com vocês dicas de filmes como este, que nos tornam pessoas melhores e mais leves.

Parabéns, Cine Belas Artes: que o poder da beleza e do exemplo advindo da arte continue dando-lhe forças para existir e encantar o público!

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