Animais Noturnos (2016)

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animais-noturnosFaltando pouco mais de 2 semanas para a cerimônia de premiação do Oscar, finalizei a cobertura dos indicados a Melhor Filme com o Lion e agora pretendo focar nas produções que concorrem a Melhor Filme Estrangeiro. Antes, porém, tirei um tempo para ver esse Animais Noturnos, filme que está indicado em apenas uma categoria (Melhor Ator Coadjuvante), mas que uma ou duas pessoas me disseram que foi feito para quem “realmente gosta de cinema”, seja lá o que isso signifique.

Dirigido e adaptado para a tela pelo diretor Tom Ford (o estilista da Gucci que aventurou-se pela primeira vez no cinema com o longa Direito de Amar), Animais Noturnos conta duas histórias paralelas que complementam-se e dão sentido uma para a outra. O tom é sombrio, há experimentações visuais e narrativas e o final é aberto, exigindo que o espectador interprete o que viu e complemente a lacuna deixada pela última cena com suas próprias impressões. Resumindo, não é um filme que o diretor pega na sua mão, mastiga tudo e te conduz através da trama. Ford dá muito (sem trocadilhos), mas exige toda a sua atenção em troca. Eu, que “realmente gosto de cinema”, assisti o filme, fiz o meu dever de casa (busquei informações e pensei sobre o que vi) e agora compartilharei com vocês as minhas conclusões. O texto conterá SPOILERS.

Susan (Amy Adams) está um tanto quanto entediada e solitária no topo do mundo. Ela é casada com um bonitão do queixo quadrado (Armie Hammer), mora numa mansão e é reconhecida e elogiada por seu trabalho como artista plástica, mas a gente olha para ela e não vê exatamente uma mulher feliz. De cara, o diretor nos mostra que Susan sabe que está sendo traída pelo marido, porém o enfeite de testa não parece ser o maior dos problemas aqui.

animais-norturnos-cena-4Certo dia, junto da correspondência matinal, Susan recebe o manuscrito de um livro. Grande é a surpresa da personagem quando, ao verificar o autor da obra, ela descobre o nome de seu ex-marido, Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal). Como o marido atual  está viajando “a trabalho”, Susan começa a ler o manuscrito imediatamente e encontra em suas páginas uma história incrivelmente familiar.

Animais Noturnos, o livro escrito por Sheffield, começa com uma família viajando de carro à noite numa estrada deserta. Num determinado ponto do caminho, Tony (também interpretado pelo Gyllenhaal), que está acompanhado pela esposa (Isla Fisher) e pela filha (Ellie Bamber), depara-se com outros dois carros bloqueando o trajeto. Ele buzina e tenta ultrapassa-los, tudo em vão. Após um período de incerteza, os carros misteriosos cedem passagem, mas em seguida eles começam a pressionar para que Tony vá para o acostamento. Bate daqui, acelera dali, Tony tem seu veículo fechado e é obrigado a parar. Das sombras, surgem Ray (Aaron Taylor-Johnson) e seus dois comparsas, animais norturnos travestidos de gente que atormentarão aquela família de todas as formas possíveis antes de realizarem seu último ato de covardia: após abandonarem Tony no meio do nada, Ray e sua turma estupram e matam mãe e filha com requintes de crueldade.

animais-norturnos-cena-3Chocada, Susan interrompe a leitura várias vezes. A primeira impressão que tive é que ela estava compreensivelmente enojada com a violência do livro, mas há mais. Susan tem dificuldade para encarar Animais Noturnos porque ela reconhece a si mesma nas páginas do livro escrito por seu ex-marido. Pior, ela vê-se no papel de vilã. Não que ela tenha matado ou estuprado alguém, mas o passado de Susan junto de Edward não foi dos melhores. Ao longo do filme, o diretor Tom Ford introduz alguns flashbacks para mostrar como Susan dispensou Edward porque ele não parecia ser um cara arrojado e promissor. Edward até tentou salvar o casamento, mas as coisas degringolaram de vez quando ele flagrou Susan traindo-o com o bonitão do queixo quadrado (pasmem!) logo após realizar um aborto. É ou não é uma danadinha essa Susan?

animais-norturnos-cena-2E por que Susan vê-se como a vilã do livro escrito por seu ex-marido? O que significa aquele final seco e abrupto? Eis as minhas teorias. De certa forma, Susan destruiu a vida de Edward ao trocá-lo por um homem mais rico e viril. Edward teve a sua masculinidade ferida da mesma forma que Tony também teve quando viu sua mulher e sua filha serem levadas por estranhos. Assim sendo, Susan compara sua traição com a brutalidade de Ray e sente vergonha de si mesma. A leitura de Animais Noturnos transforma-se então numa espécie de catarse para a personagem, que estava presa em um casamento bosta e que via o mundo de uma forma grotesca e deformada (o que fica patente nas obras de arte que ela produz). Susan entende o envio do manuscrito como uma possibilidade de reaproximar-se de Edward, reparar o mal que ela lhe fez e, de quebra, livrar-se daquela vida artificial que ela levava, mas não é bem isso que acontece. Na última cena de Animais Noturnos, Susan enche a cara sozinha em um restaurante após Edward não aparecer no encontro marcado entre os dois. Ao meu ver, trata-se de um filme de vingança: Edward transformou toda a raiva que sua ex-mulher lhe passou para produzir sua obra prima, esfregou esse trabalho na cara dela e, no último momento, encontrou forças para fazer o que deveria ser feito, que era dispensá-la de vez de sua vida. Este raciocínio é reforçado pela conclusão do livro, no qual Tony, após uma série de indecisões, descarrega uma arma no peito de Ray.

animais-norturnos-cenaQuem “realmente gosta de cinema” encontrará em Animais Noturnos muitos motivos para apaixonar-se ainda mais pela sétima arte, como a bela fotografia noturna e o poder do diretor de fazer a gente prender a respiração na cena absurdamente tensa da estrada, mas o filme não é indicado apenas para quem curte “filmes cult”. Não tenho dúvidas de que trata-se de um material denso e sombrio e que a sessão exige um pouco de reflexão no fim, porém a qualidade das atuações (o Michael Shannon, que interpreta um delegado no fim da carreira, concorre a Melhor Ator Coadjuvante), bem como a história fluída e os temas humanos que ela aborda (arrependimento e superação), são atrativos que estão ao alcance de todos.

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Lion: Uma Jornada Para Casa (2016)

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lion-uma-jornada-para-casaQuando eu era criança e estava na pré-escola, a professora me esqueceu dentro da sala na hora do recreio. O sinal tocou, ela enfileirou a molecada e saiu. Eu até cheguei a entrar na fila, mas na última hora lembrei que eu havia esquecido a minha caneca no armário (não dá para ir para o recreio sem uma caneca) e fui pegá-la. Quando me virei, a porta estava trancada e eu estava sozinho. Foram os 15 minutos mais longos da minha vida. Chorei, gritei o nome da professora (e o da minha mãe) e, no fim, tentei chamar a atenção de algum coleguinha através do buraco da fechadura, tudo em vão. Quando a professora voltou, ela encontrou uma mistura confusa de remela, catarro e desespero sentada num canto da sala. Poucos minutos depois, ela me pagou um saquinho de pipoca e um copo de refrigerante no barzinho da escola e pediu para que eu não contasse nada para a minha mãe. Eu nunca contei (se você está lendo isso: desculpa, mãe), mas também nunca esqueci.

Revivi essa lembrança horrorosa numa tentativa de estabelecer um paralelo emocional com a história do pequeno Saroo (Sunny Pawar), mas a verdade é que não há comparação justa entre ficar preso no recreio e ser esquecido numa estação ferroviária. Saroo deveria passar o dia todo deitado em um banco até que o irmão voltasse do trabalho. Ele esperou, dormiu, esperou mais um pouco e nada do cara aparecer. Quando finalmente decidiu sair para procura-lo, Saroo viu-se preso num trem em movimento que levou-o para Calcutá, cidade que fica a mais de 2 mil quilômetros de sua residência. Saroo, um menininho de 5 anos de idade que provavelmente também gostaria de ter uma caneca no recreio, viu-se então sozinho numa das maiores cidades da Índia.

Lion: Uma Jornada Para Casa é baseado em fatos reais e mostra como, 25 anos após descer na estação de Calcutá, Saroo (Dev Patel) partiu em busca de sua família. Entre perder-se e encontrar os seus, Saroo viveu nas ruas, passou fome, foi parar em um orfanato e só teve um lar quando foi adotado por um casal australiano (Nicole Kidman e David Wenham). É uma história essencialmente triste que o diretor Garth Davis conta dando um soco no nosso estômago cena após cena. É válido avisar que você tirará um ou dois ciscos dos olhos durante a sessão.

lion-uma-jornada-para-casa-cenaOs conflitos psicológicos do roteiro tornam-se mais pesados à medida que a trama avança (Saroo, já adulto, deseja reencontrar sua família mas teme que isso cause desgosto nos seus pais adotivos), porém é o início que deixa a gente com o coração apertado. O ator Sunny Pawar é muito bonitinho, do tipo que dá vontade de apertar as bochechas, e é muito ruim vê-lo lutando para sobreviver, gritando no meio de uma multidão que não quer ouvi-lo e que não pode entende-lo (Saroo fala hindi; em Calcutá o idioma falado é Bengali). As coisas melhoram um pouco para Saroo após a adoção, mas antes disso tu precisará vê-lo implorando em vão por ajuda enquanto o trem leva-o para longe de casa (foi aí que a lembrança do primeiro parágrafo bateu forte) e, pior, vê-lo dormindo em cima de um papelão no chão sujo da estação de trem. A impotência do personagem para salvar a si mesmo e a tristeza que pode ser lida nos olhos dele fazem o peito doer e colocam em xeque nossa fé na humanidade.

lion-uma-jornada-para-casa-cena-3O diretor Garth Davis mostra uma Índia pobre, suja e cheia de pessoas dispostas a explorar a inocência alheia, mas, no fim, ele também nos oferece um pouco de pipoca e refrigerante para compensar nossa gastura. O roteiro argumenta que, da mesma forma que existem pessoas ruins capazes de aproveitarem-se da fragilidade do próximo para obterem lucro (em um determinado momento, uma mulher tenta sequestrar/vender Saroo), também há quem pratica a austeridade e acredita num mundo melhor. Eu, que não sou lá um grande fã da Nicole Kidman (na maior parte do tempo, tenho a impressão que ela está atuando com ‘má vontade’), acabei rendendo-me à sinceridade do amor maternal que ela imprime à australiana Sue Brierley, a mulher que mudou o destino de Saroo (e de mais uma criança) ao adotá-lo. Sue e o marido são ricos e oferecem todas as condições para que o personagem cresça em um ambiente saudável. O conforto não faz com que Saroo supere seu passado traumático, mas dá-lhe forças (e recursos financeiros) para iniciar a busca por sua verdadeira família.

lion-uma-jornada-para-casa-cena-2Lion: Uma Jornada Para Casa tem uma história forte, envolvente e emocionante. Temas como a pobreza e o abandono infantil apoiam o roteiro mas não ditam o seu rumo, que privilegia a narrativa clássica, com começo, meio e fim bem definidos, sem grandes digressões, flashbacks e ponderações. Fora o final, que mistura doses cavalares de alegria e tristeza (a revelação sobre o motivo do irmão de Saroo ter abandonado-o na estação é devastadora), não importei-me muito com a fase adulta do personagem. Ele envolve-se com uma garota (Rooney Mara) e vive o dilema de não saber o paradeiro de sua família. É isso, nem ruim, nem fantástico. A parte da infância, no entanto, é espetacular. Apoiado no carisma do garotinho e numa fotografia exuberante (observem a beleza dos raios solares naquela cena ‘das borboletas’), o diretor construiu uma história triste, porém irresistível, que faz a gente lembrar do quão bonito e forte é o amor que une mãe e filho. Lion: Uma Jornada Para Casa concorre a 6 Oscars, dentre eles o de Melhor Filme, e, por mais que ele não deva ganhar nenhum (Melhor Fotografia, talvez?) vale a pena vê-lo para apaixonar-se e torcer pelo garotinho que sorri enquanto carrega pedras para fazer a mãe feliz.

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Estrelas Além do Tempo (2016)

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estrelas-alem-do-tempoEntre as década de 50 e 70, Estados Unidos e União Soviética travaram a chamada “corrida espacial”, disputa não declarada na qual as duas nações buscavam o pioneirismo no envio de tripulação e equipamentos para fora do planeta. Como a URSS saiu na frente (lançou o satélite Sputnik I, em 1957, e o soviético Iuri Gagarin foi o primeiro homem a viajar pelo espaço, em 1961), a pressão sobre a NASA para igualar e superar os feitos de seus concorrentes aumentou bastante.

Após lançar o seu próprio satélite (Explorer I, em 1958) e também colocar um homem no espaço (Alan Shepard, em 1961), os EUA, então sob o comando do presidente John F. Kennedy, lançaram um ambicioso plano de enviar astronautas à lua. A história nos conta que esse objetivo foi alcançado em 1969, quando o astronauta Neil Armstrong e sua equipe pousaram a missão Apollo 11 em solo lunar, ocasião que marcou a virada americana na corrida espacial e em que Armstrong proferiu a famosa frase “Este é um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”.

Iuri Gagarin, Alan Shepard, Kennedy e Armstrong. A história da corrida espacial, tal qual está registrada, foi protagonizada por homens. Em seus respectivos países, eles foram e são considerados heróis nacionais e é justo que assim o seja, visto os riscos que eles assumiram e a coragem que guiou suas missões, mas eles não chegaram tão longe sozinhos. Também é justo, portanto, que sejam prestadas homenagens àqueles profissionais cujos inestimáveis conhecimentos científicos permitiram que o espaço fosse desbravado, figuras ocultas que trabalharam nos bastidores para que outras pessoas pudessem receber os holofotes. É esse o papel de Estrelas Além do Tempo: democratizar os méritos de um dos episódios mais importantes da história da humanidade e mostrar que a glória daquele momento foi construída por várias mãos, inclusive mãos femininas e negras.

estrelas-alem-do-tempo-cena-3Desde pequena, Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson) impressionava os pais e os professores por sua capacidade de compreender e executar cálculos avançados. Seu talento permitiu-lhe formar-se em matemática aos 18 anos de idade e, aos 25, Katherine inscreveu-se e foi selecionada para um programa voltado para mulheres negras da NASA.

Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) comandou o grupo de matemáticas no qual Katherine trabalhou. Dedicada e com aptidão para as tecnologias que estavam sendo desenvolvidas no período, como a computação, Dorothy reivindicou para si o título de supervisora num período onde o racismo ainda estava enraizado nas instituições norte americanas.

Mary Jackson (Janelle Monáe) também trabalhou na NASA como matemática. Interessada na construção de aeronaves experimentais e na análise de túneis de vento, Mary decidiu seguir carreira como engenheira, o que exigiu uma batalha judicial visto que a faculdade do estado não aceitava “alunos de cor”.

Em comum, essas 3 mulheres tiveram a participação no Projeto Mercúrio, programa espacial responsável por colocar o astronauta John Gleen (Glen Powell) em órbita na Terra, em 1962, e que estabeleceu as bases para a conquista da lua no final daquela década. Também em comum, elas tiveram a luta para terem seus trabalhos reconhecidos em um ambiente dominado pelos homens e numa sociedade que media o valor das pessoas com base na cor de suas peles.

estrelas-alem-do-tempo-cenaEstrelas Além do Tempo, filme do diretor Theodore Melfi baseado em um livro da escritora Margot Lee Shetterly, é um desses longas que apelam para o senso de justiça do espectador para emocionar. Os EUA da década de 60 visavam o futuro e ambicionavam conquistar o espaço, mas aqui, em terra firme, eles ainda amargavam leis retrógradas que segregavam negros e brancos. Mesmo trabalhando para a NASA, Katherine, Dorothy e Mary ficam receosas em serem confundidas com bandidos quando o seu carro quebra na beira da estrada e uma viatura da polícia aproxima-se. Mesmo sendo uma das melhores da sua equipe, Katherine precisa andar quase 2km para usar um banheiro para “pessoas de cor” e não pode usar a cafeteira dos homens e mulheres brancas de seu trabalho. Mesmo realizando trabalho de supervisora, Dorothy não é conhecida como tal e não recebe o mesmo que outras mulheres que ocupam o cargo. Mesmo tendo todas as qualidades e qualificações para tornar-se engenheira, Mary precisa convencer a sociedade que ela tem o mesmo direito de cursar uma faculdade que os brancos. O filme aponta sistematicamente o quão injustas são essas situações e reserva um final feliz para cada uma delas, o que enche a gente de alegria e confiança no poder da perseverança e naquilo que é certo.

estrelas-alem-do-tempo-cena-4Uma das grandezas do roteiro é a multiplicidade de perspectivas abordadas sobre a questão racial. Há os brancos racistas que valem-se da legalidade da segregação para destilarem ódio e inveja contra as personagens (Jim Parsons e Kirsten Dunst), mas também há o branco liberal e progressista (Kevin Costner) e os negros que tanto não reconhecem o seu próprio valor (Mahershala Ali) quanto adotam discursos conformistas e rancorosos (Aldis Hodge). Dessa forma, o filme expõe a ferida do racismo e fala tudo o que precisa falar, mas o faz sem incitar novos conflitos raciais ou de gênero. O roteiro convida à reflexão, e cabe a cada um olhar para a tela e identificar em si mesmo o que precisa ser melhorado.

Ao contrário dos EUA, que buscavam a supremacia na corrida espacial, as protagonistas de Estrelas Além do Tempo não desejam serem superiores a ninguém e nem tampouco obterem vantagens. Elas lutaram por igualdade, e é muito bom saber que elas conseguiram vencer o preconceito e o machismo valendo-se apenas do esforço e do talento (e, no caso da Katherine, de uma gritaria frenética naquele que talvez seja o maior ‘cala a boca’ da história recente do cinema). É bom também que Hollywood tenha atentado-se para o poder de inspiração da trajetória dessas mulheres e tenha dedicado um filme a elas, ajudando assim a tornar seus nomes mais conhecidos para quem (\o) associava viagem à lua apenas ao Neil Armstrong. O filme concorre a 3 Oscars (Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante) e, dentre os selecionados, talvez seja o de maior apelo popular.

Hidden Figures Day 42

Manchester À Beira-Mar (2016)

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manchester-a-beira-marNos primeiros 10 minutos de Manchester À Beira-Mar, o zelador Lee Chandler (Casey Affleck) limpa uma privada entupida de merda, briga com uma mulher histérica e enfia a porrada em dois caras num bar. O serviço dele não é dos mais fáceis e empolgantes, mas ainda assim desconfiei que aquele mau humor todo não estava relacionado apenas ao trabalho. Eu também tenho uma rotina estressante, mas nem por isso eu saio por aí socando as pessoas (vontade não falta, mas a gente respira e conta até 10, né?). Cria-se na abertura, portanto, um gancho para que o passado do personagem seja explorado de forma a jogar um pouco de luz naquele presente nebuloso. Porque Lee é da pá virada? Antes da explicação, porém, o diretor e roteirista Kenneth Lonergan ainda aplica mais um golpe no lombo do pobre zelador: o irmão do cara morre, o que obriga-o a viajar de Boston até Manchester À Beira-Mar (sim, o nome da cidade é esse mesmo) para acompanhar o funeral.

Tive dificuldades para estabelecer laços emocionais com a história de Manchester À Beira-Mar. O filme não chega a ser ruim e, definitivamente, a vitória do Casey Affleck na categoria Melhor Ator no Globo de Ouro não foi uma “grande bobagem” (como o Rubens Ewald Filho disse na transmissão da TNT), mas senti pouca empatia pelo material como um todo. Todo caso, como acho mais produtivo falar do que gostei, vou esforçar-me para comentar o que o filme tem de bom.

manchester-a-beira-mar-cena-3Tão logo chega em Manchester (abreviado mesmo, cansei de escrever esse nome rs), Lee depara-se com uma situação inesperada: o irmão morto solicitou em testamento que ele recebesse a tutela de seu filho, Patrick (Lucas Hedges). Fica ainda pior: para cuidar de Patrick, Lee teria que abandonar sua vida em Boston e ir morar em Manchester. Fora a dificuldade de mudar radicalmente sua rotina para atender as necessidades de terceiros (lembrem-se: Lee não é lá um cara muito alegre e paciente), surge a questão concernente ao passado do personagem naquela cidade. Quando ele passa, as pessoas apontam para ele e conversam baixinho, o que dá a entender que algo ruim aconteceu.

E aí, o que diacho Lee Chandler aprontou? Não vou contar isso aqui (este não é um texto com spoilers), mas dá para dizer que foi algo MUITO traumatizante, o tipo de coisa que faz alguém querer deixar uma cidade e nunca mais voltar pra lá. A resolução desse mistério é o ponto alto do filme, porém não tenho certeza se gostei da forma como o diretor Kenneth Lonergan faz isso. Qual o recurso mais comum para mostrar cenas ocorridos no passado? Flashbacks, certo? Lonergan insere vários trechos de cenas pregressas na trama, mas ele não faz questão nenhuma de assinalar o que está fazendo. Normalmente, antes de um flashback, há um aviso do tipo “2 anos antes” ou uma transição de tela diferente e chamativa. Aqui não há nada, apenas o corte seco. Demorei para perceber que a história estava alternando entre passado e presente e, quando consegui, tive aquela sensação prazerosa de “ah, entendi!”, mas eu trocaria fácil o “eureka!” por uma edição mais tradicional.

manchester-a-beira-mar-cena-4O Chandler do Casey Affleck é aquele tipo de cara divertido para tu ver na tela mas que tende a ser insuportável na vida real. Basicamente, Manchester À Beira-Mar é sobre um sujeito que é obrigado a enfrentar os demônios de seu passado devido a um evento inesperado. Ele não queria estar naquela cidade, ele não queria conversar com aquelas pessoas e ele não queria as responsabilidades que o irmão lhe imputou, mas mesmo assim ele está lá, com aquela cara de tédio absoluto, fazendo grosserias com as pessoas, atrapalhando as transas do sobrinho, brigando com velhos na rua e distribuindo socos nos bares. A gente acaba rindo do mau humor do personagem (e até entende o porque de tanta amargura após as explicações que o roteiro traz), mas não dá para querer um cara desses por perto. O mérito dessa chatice vai todo para o Casey Affleck, que emulou bem os conflitos de um cara prestes a desmoronar psicologicamente. Merece o Oscar de Melhor Ator? Pessoalmente, prefiro o Viggo Mortensen ou o Denzel Washington.

manchester-a-beira-mar-cena-2Pra quem disse que tentaria falar sobre o que o filme tem de bom, eu já reclamei bastante (edição confusa e protagonista antipático). Vamos aos elogios. A trilha sonora de Manchester À Beira-Mar é muito bonita. Composta em sua maioria por músicas levadas no piano, a trilha é daquelas que tu realmente presta atenção. Gostei também da participação do Matthew Broderick, que aparece em uma cena do tipo “vergonha alheia”, e entendi, do fundo do meu coração, a preocupação do Patrick com o destino que dariam para o cadáver do pai dele. Como o cara morreu durante o inverno, ficava difícil escavar o chão para sepultá-lo, logo colocaram-no em um freezer até que o enterro fosse possível. Chandler, insensível, argumenta que trata-se apenas de um “corpo”, mas não é bem assim. Meu avô faleceu dentro de um ônibus e eu fui obrigado a vê-lo jogado numa maca num canto escuro de um hospital. Lembro perfeitamente de olhar para ele e pensar que ele estava com frio. Logicamente, trata-se de um pensamento irracional, mas não dá para ser muito pragmático frente à morte. Tô contigo, Patrick.

Perceberam que, a despeito do nome da Michelle Williams estar no poster, até agora eu não comentei nada sobre ela? Apesar de ter recebido uma indicação para Melhor Atriz Coadjuvante, a atriz aparece em pouquíssimas cenas. São cenas emocionalmente carregadas e o choro dela é de cortar o coração, mas é um trabalho menor quando comparado, por exemplo, com o que Naomie Harris, sua concorrente, faz no Moonlight.

Do que vi até agora, Manchester À Beira-Mar é o filme mais fraco dentre os selecionados para o Oscar 2017. Não torço por ele em nenhuma categoria, não consigo me imaginar assistindo-o uma segunda vez e me pergunto porque ele recebeu mais atenção do que o Capitão Fantástico.

Até o Último Homem (2016)

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ate-o-ultimo-homemApós ver a base naval de Pearl Harbor ser obliterada pelo ataque surpresa do Japão em 1941, o presidente Roosevelt determinou a entrada dos Estados Unidos na 2º Guerra Mundial. O sentimento de revanchismo estava em alta e levou vários jovens americanos a ingressarem no serviço militar para terem a oportunidade de matar alguns japoneses. Consciente de suas obrigações civis e desejoso de fazer a sua parte para ajudar o país, Desmond Doss (Andrew Garfield) também alistou-se no exército, mas, ao contrário de seus compatriotas, ele não estava disposto a disparar um tiro sequer.

Desmond Doss foi um Opositor Consciente, pessoa que recusa-se a matar e/ou utilizar armas de fogo devido a princípios éticos, morais e religiosos. Designado para uma companhia de atiradores que enfrentaria os japoneses na ilha de Okinawa, Doss, que era adventista e conhecedor da medicina, desafiou seus superiores e conseguiu na justiça o direito de servir na linha de frente do combate não para matar, mas sim para salvar as vidas de seus companheiros. É esta história surpreendente e emocionante que o Mel Gibson conta em Até o Último Homem, filme indicado a 6 Oscars.

Os feitos militares de Doss, que incluem coisas impressionantes como salvar 75 soldados e chutar uma granada para proteger o pelotão, já seriam mais do que suficientes para a gente afeiçoar-se ao personagem e sentir-se inspirado por ele. Nem por isso, porém, o roteiro abre mão de nos mostrar o cara legal que ele era antes da farda. A primeira hora do filme é composta do tradicional treinamento militar, com direito a umas gritarias a la Nascido Para Matar promovidas pelo Vince Vaughn, e por um resumo da história pregressa de Doss. Quando criança, o personagem quase foi o responsável pela morte do irmão ao atingi-lo com um tijolo numa briga. Depois disso, Doss entregou-se a espiritualidade e desenvolveu aversão à violência. Alguns anos mais tarde, já adulto, ele encontrou na medicina o meio de valorizar a vida e apaixonou-se pela bela Dorothy (Teresa Palmer). Doss é um cara bacana, do tipo que você gostaria que namorasse sua irmã, e o fato de ele ser interpretado pelo Homem-Aranha boa praça Andrew Garfield contribui bastante para que a gente torça por ele em sua loucura de ir para a guerra sem uma arma.

ate-o-ultimo-homem-cenaLoucura? O ponto de discórdia de Até o Último Homem, obviamente, é a questão armamentista. Com o filme contando a história de um pacifista, seria fácil o roteiro enveredar para a mensagem antiguerra. Durante o treinamento militar, aliás, é exatamente isso que a gente pensa que acontecerá, com a postura de Doss sendo alvo da violência do soldado Smitty (Luke Bracey) e da intolerância do capitão Glover (Sam Worthington), dois caras que seriam capazes de atirar na própria mãe. Quando a batalha pela colina Hacksaw Ridge começa, porém, quem é contrário ao uso de armas e violência em situações extremas é obrigado a dar o braço a torcer e reconhecer que, as vezes, o recurso mostra-se necessário. É claro que, não fosse a guerra, nenhuma daquelas atrocidades aconteceria, mas, uma vez que o conflito mostrou-se inevitável, Doss só conseguiu salvar todas aquelas pessoas porque, atrás dele, havia uma dezena de soldados atirando feito uns loucos e dando-lhe cobertura. É muito bom que o filme apresente mais de um lado para a questão das armas e argumente no sentido de que opiniões diferentes são complementares e não excludentes.

ate-o-ultimo-homem-cena-2Até o Último Homem tem discursos heroicos (o Hugo Weaving é um monstro), romance e cenas de humor negro (não é lá muito legal rir de um cara que está com uma faca cravada no pé), mas, em última instância, esse é um filme do Mel Gibson, o mesmo cara que redefiniu o conceito de batalhas em larga escala no Coração Valente, transformou a crucificação de Jesus num espetáculo sangrento no A Paixão de Cristo e envolveu o pobre Jaguar Paw numa nuvem de marimbondos no Apocalypto. Colocando de outra forma, esse é um filme de guerra de um diretor que já provou-se especialista em fazer sangue jorrar, e a última metade da trama testa pra valer a capacidade do espectador de continuar olhando para a tela após uma série de mortes e cenas macabras. Na tentativa de tomar a colina, os soldados americanos tem seus corpos queimados, alvejados por balas e dilacerados por explosões. Após cada uma das muitas e espetaculares batalhas, vê-se toda espécie de podreira espalhada pelo chão, coisas como vísceras, membros incinerados e corpos sendo consumidos por vermes e ratos.

ate-o-ultimo-homem-cena-3Desmond Doss não precisava ter ido para a guerra. Defensor do “não matarás“, ele teve todas as chances e motivos para abandonar a infantaria. Sua noiva pediu para ele desistir. Sua família pediu para ele desistir. Seus superiores tentaram fazê-lo desistir. Contra tudo e contra todos, Doss desceu até o inferno, olhou a morte nos olhos e voltou de lá como um herói sem disparar uma única bala. As ações do violento soldado Smitty impressionam (no momento mais loucão do filme, o cara usa a carcaça de um morto como escudo para avançar contra os japoneses), mas o que emociona a gente de verdade são os esforços que o magricelo Doss faz para resgatar seus companheiros. Orando e pedindo para Deus “ajudar-lhe a salvar mais um”, o personagem medica e retira dezenas de soldados feridos do campo de batalha. Dadas as limitações físicas e técnicas de Doss, não é exagero dizer que o que ele fez (o filme é baseado em fatos reais) foi um verdadeiro milagre.

Até o Último Homem homenageia um herói da vida real (no fim, há trechos de entrevistas com o próprio Doss, que faleceu em 2006) e, pelo tom respeitoso e politicamente correto, pode representar a volta por cima do diretor, que perdeu fãs e prestígio após declarações antissemitas e racistas nos últimos anos. Gostando ou não do Mel Gibson pessoa, no entanto, é preciso reconhecer que o Mel Gibson cineasta acertou a mão mais uma vez: Até o Último Homem é um filmão.

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Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)

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moonlight-sob-a-luz-do-luarQuando os créditos surgiram anunciando o final de Moonlight, fiquei com aquela incômoda sensação de não ter “entendido o filme”. Não que a trama seja complexa ou algo do tipo, mas o propósito do roteiro (mais conhecido como ‘moral da história’) me escapou. Antes de escrever esse texto, fiquei um dia pensando sobre o que vi e cheguei a conclusão que o “problema” realmente estava comigo. O recorte temporal que o diretor e roteirista Barry Jenkins faz da vida de Chiron (Alex Hibbert/Ashton Sanders/Trevante Rhodes), mostrando-o na infância, adolescência e maturidade, não parece ter a pretensão de ensinar nada pra ninguém. O que Moonlight oferece é a oportunidade do espectador bisbilhotar, do conforto de sua poltrona, numa realidade selvagem, cabendo a cada um extrair de lá o que melhor lhe aprouver.

Jenkins conta sua história em 3 capítulos que recebem os nomes/apelidos que o protagonista usou ao longo da vida. Manterei essa divisão para organizar melhor as minhas ideias sobre o que vi e farei algumas revelações importantes sobre o roteiro, ok?

1. Moleque: Chiron nasceu e foi criado em uma vizinhança violenta. Sua mãe, Paula (Naomie Harris), é uma usuária de drogas que prostitui-se dentro da própria casa para sustentar o vício. Sem nenhum tipo de carinho e proteção, o menino vira alvo fácil para os valentões da escola. No início do filme, Chiron (ou ‘Moleque’, como ele é desdenhosamente chamado) corre de um grupo de perseguidores e esconde-se em uma tapera. Juan (Mahershala Ali), um traficante local, observa a cena e afugenta os delinquentes. Este episódio aproxima homem e criança, com Juan e sua esposa, Teresa (Janelle Monáe), passando a fornecer a estrutura familiar que o personagem nunca teve.

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena2. Chiron: Juan partiu deste mundo (provavelmente vítima da vida arriscada que ele levou) e Chiron seguiu seu caminho. Às vezes ele visita Teresa e os problemas tanto com a mãe quanto com o pessoal da escola continuam, mas agora o garoto, já um adolescente, está envolvido mesmo é em seu próprio processo de autoconhecimento. Chiron, que agora faz questão de ser chamado pelo próprio nome, descobre-se gay em um final de tarde quando recebe um beijo de Kevin (Jharrel Jerome), seu amigo de infância. O relacionamento não dura: acovardado, Kevin junta-se a outros garotos e aplica uma surra em Chiron. No dia seguinte, o personagem é preso por quebrar uma cadeira nas costas de um de seus agressores.

3. “Nêgo”: Já adulto e solto da cadeia, Chiron transformou-se em um traficante de drogas e adotou o apelido de ‘Nêgo’. Quando o vemos pela primeira vez, com aquela dentadura de ouro e uma pistola na cintura, a sensação que temos é que o período encarcerado matou o resto de sua inocência. A “pose” do tipo N.W.A., porém, não dura muito: numa madrugada qualquer, Chiron recebe uma ligação de Kevin (André Holland), seu antigo amigo/amor e decide encontrá-lo.

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena-3Como vocês puderam ver, Moonlight é um prato cheio para quem gosta de temas polêmicos como violência, racismo, bullying, homossexualidade e núcleos familiares desfeitos. Como já vi muitos filmes que giram em torno dessas polêmicas, fiquei esperando por uma cena ou uma mensagem que convidasse o espectador a problematizar as questões postas, mas isso simplesmente não acontece, daí vem o nó mental relatado no primeiro parágrafo. A gente sabe que o fato de Chiron tornar-se um traficante está intimamente ligado aos problemas que ele enfrentou com a mãe e ao ambiente inóspito no qual ele cresceu, mas o diretor Barry Jenkins não nos obriga a acreditar nisso. Não há tampouco uma tentativa de explicar/justificar a homossexualidade do personagem relacionando-a à questões sociais e/ou biológicas. As coisas são como elas são, e não vi nenhum espaço para julgar as ações do personagem.

O fato do filme trazer uma história bastante hermética (fechada em si mesma), porém, não impede que a gente relacione-se com ele. Revisitando o que vi, resgatando cenas da memória e revendo alguns trechos, encontrei o seguinte diálogo:

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena-5Juan: Uma vez, eu encontrei essa senhora. Ela era muito velha, velha mesmo. E essa senhora, ela me parou e disse: correndo por aí, sob a luz do luar, garotos negros ficam azuis. Você está azul. Então vou te chamar assim: azul.

Chiron: Então seu nome é azul?

Juan: Não. Chega um momento que você precisa decidir quem você é. Ninguém pode tomar essa decisão por você.

Aí está: tomada de decisão. Não há determinismo social, você escolhe o seu próprio caminho. Estaria aí, nesse trecho que não por acaso contém o título do filme (e seu correspondente subtítulo nacional tosco), a essência de Moonlight? Sim e não. De fato, Chiron acaba tendo algumas atitudes que mudam o seu destino, como quando ele resolve abandonar o papel de vítima e chispar uma cadeira nas costas de um idiota. Por outro lado, tão logo sai da cadeia, ele segue exatamente os mesmos passos de Juan e recorre à criminalidade para ganhar a vida, logo ele, Chiron, que ainda pequeno sabia que as drogas destruíam a vida de pessoas fracas como sua mãe.

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena-4A gente simpatiza com Kevin por ele tratar Chiron bem mas em seguida ele junta-se a um bando de babacas e bate no personagem. A gente detesta a mãe drogadona do cara mas, no fim, ela reconhece os próprios erros e dá um conselho muito válido para ele. Perceberam o quão difícil é formar opinião sobre o conteúdo do filme? Tal qual a luz da lua, tudo nesse filme é meio acinzentado, daí nossas mentes condicionadas diariamente para ver apenas em preto e branco tem dificuldade em ler personagens e situações que parecem estar além do bem e do mal. O fim sugere uma redenção através do amor? Talvez, mas não tenho certeza rs

Moonlight concorre a 8 Oscars, dentre eles Melhor Filme, Diretor, Roteiro, Atriz e Ator Coadjuvantes, e é bastante pesado e desafiador. Só veja se você estiver disposto a deixar-se incomodar.

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La La Land: Cantando Estações (2016)

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Ontem, 24/01, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os indicados ao Oscar de 2017 (clicando aqui você vê a lista completa dos concorrentes). Seguem alguns comentários sobre os selecionados:

  •  A despeito de ter disputado apenas prêmios secundários no Globo de Ouro, o drama racial Estrelas Além do Tempo arrancou uma surpreendente indicação a Melhor Filme. O ocorrido parece ser uma resposta da Academia às críticas sofridas em 2016, quando praticamente nenhum ator/atriz negro(a), bem como as produções voltadas para eles, tiveram espaço na cerimônia. Olhando para cada categoria, percebe-se que esse ano houve uma preocupação com a diversidade, o que é bastante positivo.
  • Outra surpresa em relação ao Globo de Ouro foi a performance do ótimo A Chegada, que passou de 2 para 8 indicações, incluindo Melhor Filme. Os fãs de ficção científica agradecem o/
  • Eu não esperava o Mel Gibson na lista para Melhor Diretor, não por ter alguma crítica negativa ao que ele fez no Até o Último Homem, que ainda não vi, mas pela recente trajetória polêmica dele fora das telas.
  • Bizarro o Elle vencer o Globo de Melhor Filme Estrangeiro e não ser sequer indicado na mesma categoria do Oscar, ainda mais porque que sua protagonista, a Isabelle Huppert, concorrerá a Melhor Atriz. Alguém em Hollywood não gosta do Verhoeven.

Anúncio feito, agora é esperar até o dia 26/02 para assistir a cerimônia de premiação e conhecer os vencedores. Ficarei feliz comigo mesmo se, até lá, eu conseguir ver e resenhar pelo menos mais 12 filmes, o que cobrirá todos os indicados nas principais categorias e ainda me permitirá ver ao menos um documentário. I am one with the force and the force is with me! Bora!

la-la-land-cena-3La La Land ainda está nos cinemas e uma forma bem fácil de vendê-lo é dizer que o filme concorre em incríveis 14 categorias, o que coloca-o ao lado do Titanic e do A Malvada como recordista de indicações. A outra forma é defini-lo pelo que ele é, um musical que aquecerá o seu coração e fará com que você recorde cada um dos pequenos e belos momentos que marcaram o início da sua relação com aquela pessoa especial. Prefiro essa segunda abordagem, mas reconheço que ela esbarra em um problema: o musical, apesar de ser um gênero queridinho da Academia, não tem muito apelo junto ao público ocasional. Minha esposa mesmo, antes do filme começar, reconheceu que estava curiosa, mas que não gosta “quando aquele povo começa a cantar e dançar”. Nesse texto, contarei-lhes como o La La Land venceu a resistência dela à musicais e explicarei-lhes porque o filme tem tudo para ser o grande vencedor do Oscar de 2017.

la-la-land-cena-2É apenas mais um dia ensolarado em que dois jovens tentam sobreviver na mágica porém cruel cidade de Los Angeles. Mia (Emma Stone) trabalha como atendente na lanchonete de um estúdio e sonha com a possibilidade de tornar-se uma estrela de cinema. O pianista Sebastian (Ryan Gosling) toca músicas chatas em bandas ruins enquanto planeja abrir o seu próprio bar de jazz. O amor pela arte e o desejo de uma vida melhor unirá os personagens em uma história cheia de altos e baixo e muitas, muitas cenas onde o “povo começa a cantar e dançar”.

É claro que a cantoria causa estranhamento. Não é todo dia que você está em um engarrafamento e, do nada, alguém salta de um carro e começa um coro sobre o poder da perseverança. Superado esse “choque” inicial, porém, a qualidade do material fala mais alto do que qualquer desconfiança. La La Land foi escrito e dirigido pelo Damien Chazelle (o responsável pelo conceitual Whiplash) e, cena após cena, fica patente o esmero do diretor na coreografia das danças e na manipulação da câmera para que o espectador experimente algo arrebatador. Da parte técnica, chamo a atenção para o seguinte:

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  • Plano-sequência: Seja nas passagens grandiosas como a dança na ponte que abre o filme, seja em cenas mais intimistas como a do planetário ou ainda nas apresentações solo dos protagonistas, Chazelle praticamente não utiliza cortes, filmando tudo em incríveis tomadas contínuas.
  • Experimentação: Tradicionalmente, musicais costumam utilizar suntuosos cenários de estúdio para os personagens executarem suas performances. O diretor vale-se desse recurso (principalmente no final, com as muitas transições entre ambientes), mas ele também leva a dança para lugares pouco comuns. Gostei de ouvir os TIC PLEC dos sapatos de Sebastian e Mia no asfalto e achei a sequência abstrata do planetário, com o casal flutuando e movendo-se no infinito, o ponto alto do filme.
  • Repertório: La La Land é uma defesa apaixonada do jazz e do musical, dois formatos que Chazelle considera ameaçados atualmente. O diretor as vezes soa amargo (Sebastian diz que Los Angeles venera tudo mas não valoriza nada), mas a argumentação dele concentra-se mais em enaltecer o que ele ama através de citações dos grandes clássicos do estilo. Sou leigo em jazz, mas notei a frequência com que nomes de músicos são citados (bem como suas fotos nos cenários) e vi referências ao Cantando na Chuva (Sebastian rodopiando no poste), Cinderela em Paris (os balões), Sinfonia de Paris (toda a sequência final) e ao próprio Whiplash, com o J. K. Simmons fazendo uma divertida inversão de seu papel naquele filme (agora ele não gosta de jazz).

la-la-land-cena-5O espetáculo técnico, porém, pouco valeria se não viesse acompanhado de bons sentimentos. Palavras do Stephen King no Sobre a Escrita, “é menos sobre estilo e mais sobre contar uma boa história”. Sebastian e Mia são sonhadores, pessoas como eu e você que acordam todos os dias querendo uma oportunidade de mostrar ao mundo quem eles realmente são. Após um começo difícil (no engarrafamento, ele buzina e manda ela ir tomar um suco), eles encontram o caminho até o coração um do outro e, juntos, buscam forças para viverem seus sonhos. La La Land traz uma visão bem adulta sobre projetos de realização pessoal, mostrando que, as vezes, é necessário saber aceitar menos do que a gente merece antes da vitória chegar, mas ele também tem espaço para a inocência do amor adolescente. A química entre o Ryan Gosling e a Emma Stone, ambos indicados ao Oscar, me lembrou da primeira vez que saí com a minha (hoje) esposa, da primeira cerveja dividida em um bar barulhento, da primeira sessão de cinema juntos e, claro, do primeiro beijo. Durante a execução da linda City of Stars (concorre a Melhor Canção Original) eu olhei para o lado e vi ela me olhando de volta, sorrindo. Naquele momento, tive duas certezas: 1) ela gostou do filme que “o povo canta e dança”  tanto quanto eu 2) sou sortudo pra caralho.

La La Land foi o grande vencedor do Globo de Ouro e tem tudo para repetir o desempenho no Oscar. Vi um filme cult, que celebra o jazz e a história de Hollywood com uma técnica primorosa, mas também vi uma história de amor que faz qualquer um querer voltar a viver um namorinho de portão. Seu trabalho, Damien Chazelle, merece ser venerado pela Academia (com o Oscar) e valorizado pelo público (com o ingresso). Parabéns e obrigado ❤

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