Jason Bourne (2016)

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Jason BourneO Legado Bourne, tentativa de revitalizar a série Bourne no cinema após suas principais estrelas (o ator Matt Damon e o diretor Paul Greengrass) recusarem-se a realizar um quarto filme da franquia, não foi exatamente um longa ruim, mas é notório que houve pouca coisa na aventura do Aaron Cross (Jeremy Renner) capaz de empolgar os fãs antigos da série. Mesmo com uma recepção morna, porém, Cross deve ganhar uma segunda chance de cair nas graças do público em alguma data entre 2018 e 2020, mas é seguro dizer que o que todo mundo queria ver mesmo era a continuação direta dos eventos do já longínquo O Ultima Bourne (2007), que terminava com o Jason (M. Damon) escapando vivo após revelar para o mundo os detalhes obscuros das operações Treadstone e Blackbriar.

Cientes desse anseio dos espectadores, a Universal Pictures conseguiu trazer a dupla Greengrass/Damon de volta à franquia para expandir aquele mundo de espionagem e conspirações governamentais criado pelo escritor Robert Ludlum. O roteiro de Jason Bourne (que, ao contrário daqueles vistos na trilogia original, foi escrito exclusivamente para o cinema e não possui correspondente literário) é relativamente simples quando comparado com tudo o que foi feito anteriormente, mas ainda assim o talento do Greengrass para conduzir cenas de ação tensas e empolgantes garante um boa sessão e faz deste filme uma continuação para a série melhor e mais interessante do que aquela vista no Legado.

Jason Bourne - CenaO tempo passou e o cabelo do Bourne começou a ficar grisalho, mas, felizmente, não vemos aqui uma história de decadência física tal qual aquela bobagem que fizeram no Skyfall. A cena que abre o filme, aliás, serve justamente para mostrar que o personagem continua tão forte e letal quanto antes: numa rebimboca qualquer do mundo, vemos ele apagar um grandalhão com apenas um soco numa briga de rua. Depois de expor o governo americano, Jason queria passar o restante de seus dias no anonimato, mas informações obtidas por sua antiga parceira Nicky Parsons (Julia Stiles) revelam não somente que a Treadstone era apenas uma dentre tantas outras operações ilegais do governo quanto apontam novos detalhes sobre o passado do personagem.

Jason Bourne é isso, um filme repleto de novas cenas de pancadaria e perseguições de carro no qual nos contam um pouco mais sobre a vida do herói enquanto ele ainda chamava-se David Webb. Até então, imaginávamos que o personagem havia voluntariado-se para o projeto Treadstone (revelação que é feita no final do O Ultimato Bourne), mas não foi exatamente isso que aconteceu. Os dados descoberto por Nicky ajudam Jason a lembrar-se do pai em um triste episódio que foi fundamental para que ele aceitasse transformar-se em uma máquina de matar. O problema é que esses dados também sugerem que esse episódio foi armado por agentes da CIA para enganá-lo. É claro que o cara não deixará pedra sobre pedra até encontrar e punir os responsáveis pelo embuste.

Jason Bourne - Cena 3O diretor Paul Greengrass, que também escreveu o roteiro, até tenta trazer alguns elementos contemporâneos para enriquecer a história e torná-la atual (a questão da privacidade dos dados de usuários de internet, por exemplo, é uma clara referência a megacorporações como a Apple), mas a grande verdade é que Jason Bourne apenas requenta tudo aquilo que já havíamos visto e aprovado anteriormente ao longo da série. Um personagem importante é alvejado e morto por um tiro de sniper (A Supremacia Bourne), há uma perseguição fantástica/impossível de moto (O Legado Bourne), a figura do homem mauzão chefe da CIA (Tommy Lee Jones) contrapondo uma personagem feminina idealista (Alicia Vikander) na caça ao personagem (A Supremacia/ O Ultimato Bourne) e, claro, um assassino (Vincent Cassel) tão bom quanto o protagonista perseguindo-o durante toda a trama (A Identidade Bourne/A Supremacia). Essas semelhanças associadas a flashbacks e ao resgate de cenários reconhecíveis pelo público, como a tomada aérea da base da CIA em Langley, provocam no espectador aquele sentimento nostálgico de quem retorna para casa, mas não dá para deixar de lado o fato de que, na verdade, não é a primeira vez que estamos vendo aquele material.

Jason Bourne (2016)As cenas de ação são muito legais, daquelas que tu nem pisca para não perder o frenesi de destruição provocado pelos personagens, mas, apesar de funcionais, elas não tem o mesmo brilho daquelas vistas principalmente no A Supremacia Bourne. Lembram do Matt Damon usando uma revista (!!!) para detonar um vilão em uma luta espetacular e com pouquíssimos cortes da câmera dentro de uma casa? Não tem nada parecido com aquilo aqui. O Greengrass, que virou referência no gênero ação justamente pelo seu trabalho minucioso na série, parece ter rendido-se aos cortes vertiginosos e agora mostra tudo em ritmo acelerado e pouco compreensível. A imaginação do cara continua boa (precisa de muita criatividade para fazer uma perseguição de carro terminar dentro de um cassino rs) mas a técnica já foi bem melhor.

Jason Bourne é uma colcha de retalhos nostálgica de tudo o que a série fez até aqui. Poderia ter sido melhor executado? Sim. O roteiro poderia ser melhor elaborado? Sim, também poderia, mas, por ora, permitirei-me ficar feliz com o retorno do Matt Damon para o seu papel mais icônico e com o aparente reinício da franquia. Para um próximo filme, porém, espero algo que faça jus ao título de “inovadora” que a série sempre evocou.

Jason Bourne - Cena 4

Esquadrão Suicida (2016)

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Esquadrão SuicidaPor mais difícil que seja, é preciso reconhecer a verdade: Esquadrão Suicida é ruim. No máximo, com muito amor no coração, dá pra dizer que ele é mediano, um 5/10, mas bom ele não é. Não estou dizendo isso porque eu “gosto dos filmes da Marvel”. Não estou dizendo isso porque os “trailers vendiam um filme e entregaram outro”. Enfim, não estou dizendo isso para contribuir com o “sepultamento” que o filme está recebendo em alguns cantos da internet. Não gostei de Esquadrão Suicida porque achei-o mal feito, rasteiro e sem personalidade e, neste texto, explicarei-lhes o porque da avaliação negativa.

Antes de começar a resenha, porém, faço-lhes um pedido: vão ao cinema, vejam o filme e, só depois, voltem aqui para trocarmos uma ideia. Digo isto tanto porque utilizarei SPOILERS abaixo quanto porque não quero que a minha experiência substitua a sua. O papel da crítica cinematográfica, acredito, não é afastar o público das salas de projeção nem mudar a opinião de ninguém, mas sim ajudar o espectador a enriquecer suas próprias impressões acerca daquilo que ele mesmo viu. Concordar ou discordar do crítico é apenas uma consequência caso tu conheça o assunto tratado, mas é fundamental que tu conheça o assunto para que haja diálogo, certo?🙂

Esquadrão Suicida chega aos cinemas depois de O Homem de Aço e Batman vs Superman com a tarefa de 1) ampliar o chamado Universo Estendido da DC, apresentando um novo grupo de heróis/vilões e 2) conectar as produções anteriores e plantar links para os próximos lançamentos da DC Comics. Ao meu ver, nenhuma das duas propostas foram desenvolvidas satisfatoriamente, mas é principalmente as falhas da primeira (apresentar os personagens) que faz o filme do diretor David Ayer afundar.

Esquadrão Suicida - Cena 4O fato de um alienígena extremamente poderoso como o Superman ter escolhido a Terra para viver colocou nossas autoridades em estado de alerta. Temendo que o kryptoniano volte-se contra os humanos ou que a presença dele aqui atraia novas criaturas hostis como o General Zod e o Apocalypse, a agente Amanda Waller (Viola Davis) propõe ao governo norte americano a criação de um grupo secreto de pessoas com habilidade extraordinárias (os chamados meta-humanos) para defender-nos em situações de emergência. Até mesmo pela característica “suicida” dessas missões, Amanda sugere que os membros do grupo sejam recrutados nas prisões, visto que, na visão fria e pragmática dela, vilões condenados são “descartáveis”. É assim que nasce o Esquadrão Suicida, uma equipe de desajustados fora da lei comandada pelo soldado Rick Flag (Joel Kinnaman).

Tão logo Amanda consegue formar sua equipe de vilões, surge uma ameaça para colocar à prova as habilidades dos personagens. Enchantress, uma entidade ancestral que habita o corpo da pesquisadora June Moone (Cara Delevigne), sai do controle e inicia um plano de dominação global. É assim que o Esquadrão Suicida, que é formado por Arlequina (Margot Robbie), Deadshot (Will Smith), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Diablo (Jay Hernandez), Killer Croc (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e Slipknot (Adam Beach), bem como Katana (Karen Fukuhara), guarda costas de Rick Flag, entra em ação para evitar o pior.

Esquadrão Suicida - Cena 3Filmes de origem, desses que precisam contar a história dos personagens antes de colocá-los para quebrar o pau, são sempre complicados de se fazer. Para que esse tipo de longa dê certo e consiga estabelecer laços emocionais com o público, é preciso que o roteiro dedique tempo suficiente para desenvolver as relações pessoais dos personagens (motivações, família, amigos, inimigos), de modo que, quando a pancadaria começar, tu veja na tela não um zé mané qualquer com um uniforme no meio de uma infinidade de efeitos especiais, mas sim aquele cara legal cuja história tu conheceu e afeiçoou-se desde o início da projeção. Não é isso que acontece em Esquadrão Suicida.

Tão logo o filme começa, vemos a Amanda Waller em um jantar defendendo seu projeto de super grupo para o governo. Durante uns 15 min (?), ela apresenta cada um dos vilões, falando de suas habilidades e de seu passado no crime. Esta cena, além de ser rápida e acompanhada por textos explicativos impossíveis de serem lidos na totalidade (pisque e tu perderá informações importantíssimas, como aquela que fala do assassinato do Robin, por exemplo), ainda precisa cumprir o papel de linkar o filme com as futuras produções da DC (o Flash e o Batman aparecem por aqui). O ritmo é tão acelerado e o background dos vilões é tão superficial que, quando o tal Slipknot morre após uma tentativa de fuga, a única coisa que eu consegui pensar foi “foda-se”. A matemática, nesse caso, é implacável: quanto mais personagens tu tiver, mais tempo tu precisa investir para desenvolvê-los. Não fazer isso é o primeiro passo para criar um produto genérico.

Esquadrão Suicida - Cena 6Esse defeito é corrigido durante o filme? Parcialmente. Anunciados como as grandes estrelas de Esquadrão Suicida, a Arlequina e o Coringa ganham muitas cenas de flashback para explicar como começou e desenvolveu-se o romance obsessivo deles, tanto que a gente realmente passa a importar-se com o destino dos personagens. O resultado também é satisfatório para o Deadshot do Will Smith, que rala bastante para conseguir protagonizar o longa (não é fácil competir com uma dupla de loucos coloridos) com sua história de devoção à filha. O restante dos personagens não recebe a mesma atenção e parece estar ali só para fazer volume, sofrendo para conseguir uma ou duas frases de efeito e para emplacar suas próprias esquisitices. A ideia do unicórnio cor de rosa do Capitão Bumerangue, por exemplo, não rende nem a metade do que poderia render.

O grande problema desse Universo Estendido da DC parece ser justamente esse: eles não estão interessados em gastar tempo e filmes para nos mostrar como as coisas começaram. O Capitão Bumerangue? Ele é aquele cara lá que rouba as coisas e que foi preso pelo Flash. Como? Quando? Eles explicam tudo isso em um flashback de 15seg. O Batman tem 20 anos de lutas contra o crime, o Robin foi morto pelo Coringa e pela Arlequina… Isso tudo aconteceu em histórias que não vimos e das quais só ouvimos falar em diálogos e referências plantadas nos cenários. Ao que parece, a DC não quer perder o bom momento para filmes de super heróis e está tentando acelerar a adaptação de seu universo para os cinemas. Achei compreensível eles pularem a origem do Batman no Batman vs Superman (eles poderiam contar essa história no já anunciado filme solo do morcegão), mas não dá para entender o motivo dessa pressa com o Esquadrão Suicida: poderiam ter feito um filme legal misturando humor, cenas de ação fantásticas e um pouco de violências, tal qual o Guardiões da Galáxia, mas preferiram realizar uma espécie de vídeo clipe tosco onde a história dos personagens fica em segundo plano para dar espaço para um romance hiper colorido embalado por músicas de forte apelo popular (quem não gosta de Bohemian Rhapsody?).

Esquadrão Suicida - CenaConsigo até imaginar um reunião dos executivos da DC onde foi dito o seguinte: “Como o marido da Katana morreu? Por onde o Killer Croc andou? Não importa, explicamos isso em um diálogo. Acrescenta mais um close da bunda da Arlequina aí ou coloca ela para falar algo insano com AQUELE sorriso. Ah, coloca o Batman também. O Batman é legal.” Esquadrão Suicida é uma colagem de coisas potencialmente legais que, sem contexto, não funcionam e soam gratuitas. Peguemos, por exemplo, aquela cena do trailer onde a Arlequina rouba uma joia de uma vitrine. Legal o derrière, legal a fala, mas ela não acrescenta NADA para a história. Vi a mesma falta de propósito na referência ao Watchmen (o smile dentre da vitrine), na Arlequina quebrando o pau dentro do elevador (pra quê?) e na cena do Coringa deitado e rindo no meio de um círculo de facas: tudo muito legal, tudo muito bonito, mas completamente desnecessário.

A trilha sonora é uma das melhores dos últimos anos, as atuações do Jared Leto e da Margot Robbie (nunca duvidei deste Coringa) estão desgraçadas de boa e o Deadshot é um bom personagem, mas a real é que este filme é composto de uma única, gigantesca e  genérica cena de ação (encontrem a Enchantress, matem a Enchantress) com um monte de personagens esquecíveis e sem personalidade. Aparentemente, não era para ser assim. Notícias que podem ser lidas em sites especializados dizem que, tal qual aconteceu no Quarteto Fantástico, a direção do David Ayer sofreu diversas intervenções. Muito material que ele gravou para desenvolver os personagens (coisas como aprofundar o relacionamento do Flag com a June, por exemplo) ficou de fora do corte final para dar lugar para piadinhas cretinas (aquela do ‘limpar o histórico de navegação’ foi sofrível) e para colocar mais cenas de ação. O fato do público ter torcido o nariz para o lado sombrio do Batman vs Superman, pelo visto, foi preponderante para que esse filme mudasse de tom e mostrasse não o que o diretor preparou, mas sim o que o “espectador médio” queria ver: piadas, romance e explosões. Que bosta.

Esquadrão Suicida - Cena 5Repetindo o que eu disse no texto do A Origem da Justiça, a Marvel gastou pelo menos 6 filmes antes de reunir os Vingadores. Mesmo em longas menos inspirados, como o primeiro do Thor, eles fizeram o dever de casa: contaram a origem do personagem, apresentaram o mundo dele, a família, os inimigos, etc. A gente vai no cinema e pira com produções como o Guerra Civil porque a gente sabe da trajetória daqueles personagens, porque a gente já viu eles conversando e lutando antes. Ou a DC adota a mesma fórmula e tira o pé do acelerador ou ela está correndo o sério risco de perder toda a credibilidade junto ao público que realmente gosta de cinema e de quadrinhos e que conhece aqueles personagens e sabe o que eles podem render. Não dá para desperdiçar atuações como a do Leto e da Robbie num filme ruim desses, não dá para continuar apenas falando de personagens e acontecimentos que eles ainda não mostraram, não dá para colocar o Batman em uma cena pós crédito falando da Liga da Justiça e achar que, com isso, tu irá motivar o público a voltar ao cinema para ver outra história ruim. Se a editora for esperta, dessa vez ela ouvirá as críticas certas (ter um ‘tom sombrio’, nem de longe, é um defeito) e repensará a condução do seu universo cinematográfico. Torço para que isso aconteça.

Esquadrão Suicida - Cena 2

Um Dia Perfeito (2015)

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Um Dia PerfeitoEm 2010, quando fui para São Paulo participar do 5° Festival de Cinema Latino-Americano, fiquei hospedado em um hotel próximo da Av. Paulista. Sempre que eu saía do local para ir ao metrô ou para pegar o ônibus, eu passava em frente ao Cine Belas Artes e invejava profundamente os paulistas por terem um lugar tão bacana como aquele disponível na cidade deles. Até onde pude entender naquela ocasião, o Belas Artes exibia apenas filmes fora do circuito comercial. Gosto de blockbusters, mas também gosto dos chamados “filmes alternativos”, produções que raramente entram na grande de programação das redes de cinema tradicionais (como o Cinépolis e o Cinemark) por conta de seus temas ou gêneros de pouco apelo junto ao público ocasional.

Na ocasião, absorvido pela programação do Festival, não consegui converter a minha admiração pelo cinema em tempo para comprar um ingresso e conhecer o local, mas mentalmente prometi pra mim mesmo que um dia eu ainda voltaria lá para viver aquela experiência. Foi com um grande pesar, portanto, que recebi a notícia, em 2011, de que o Belas Artes havia fechado as portas por falta de patrocínio. Além de desenvolver uma atividade que não visa exclusivamente o lucro, o terreno do cinema, que está localizado em uma região nobre de São Paulo (cruzamento da Rua Consolação com a Av. Paulista), era alvo constante de especulação imobiliária e mantê-lo funcionando sem patrocínio tornou-se impraticável.

Gosto de acreditar que, no fim, o bem sempre triunfa (essa mensagem, aliás, é o que dita o ritmo deste divertido Um Dia Perfeito, filme que, prometo, já já eu vou comentar rs), e foi com uma sensação pessoal de vitória que, no último dia 30/07, eu finalmente consegui ver um filme no Belas Artes. Ué, mas ele não foi fechado? Foi sim, mas, graças à mobilização dos fãs, de empresários e do poder público, o local foi reaberto em 2014, desta vez patrocinado pela Caixa Econômica Federal. Foi assim que, ao lado das melhores companhias (minha esposa e o amigo Antônio Carlos, que é formado em cinema e me ensinou muito do que sei sobre o assunto), eu encerrei as minhas férias com chave de ouro realizando um sonho antigo de cinéfilo.

Um Dia Pefeito - Cena 4Não foi fácil escolher algo para ver, mas até essa “dificuldade” foi gostosa. Em cartaz, estavam pelo menos uns 5 filmes dos quais eu não havia ouvido falar absolutamente nada, ou seja, todos eles ofereciam infinitas possibilidades de novas descobertas. Eu estava bastante disposto a assistir um lá que, ao que tudo indicava, falava sobre o relacionamento entre duas jovens, tema importante e atual, mas acabei optando por esse Um Dia Perfeito devido a presença do Tim Robbins no elenco, ator que sempre foi meu “porto seguro”, cinematograficamente falando, desde que vi-o no Um Sonho de Liberdade.

O filme traz um recorte temporal de aproximadamente um dia na vida de um grupo de trabalhadores humanitários numa zona de conflito nos Bálcãs durante da década de 90. Liderados por Mambrú (Benicio Del Toro), os personagens precisam lidar com uma série de problemas cotidianos para garantir a manutenção dos acordos de paz que órgãos internacionais como a ONU estão negociando para a região.

O contexto político e social da guerra é deixado em segundo plano pelo diretor e roteirista espanhol Fernando León de Aranoa, que prefere focar nas relações humanas entre os personagens, explorando seus medos, sonhos, discordâncias e amores numa situação de exceção. Quando o grupo encontra o corpo de um homem morto jogado dentro de um poço, eles precisam agir rapidamente para que o cadáver não contamine a água e prejudique a população do local. O que parecia ser uma operação rotineira, no entanto, acaba tornando-se uma verdadeira epopeia quando a única corda que eles tinham para retirar o corpo arrebenta devido ao peso do morto.

Um Dia Pefeito - CenaMambrú e B (Tim Robbins), veteranos naquele tipo de serviço, sugerem uma solução pragmática para o problema: ir até um mercado próximo, comprar uma corda nova, retornar ao local e retirar o corpo. Fim da história. Acontece, porém, que eles estão subordinados aos militares em exercício na região, e os militares, temendo que a retirada do corpo possa provocar mais conflitos entre a população local, ordenam que eles deixem o poço exatamente como ele estava. Mambrú e B acatam as ordens, mas o mesmo não acontece com Sophie (Mélanie Thierry). Jovem e sonhadora, ela discute com os soldados e convence o restante do grupo a prosseguir com a procura pela corda. Completando o time, há ainda o caladão Damir (Fedja Stukan), um homem que trabalha como tradutor e que prefere não envolver-se mais do que o necessário naquele conflito, e Katya (Olga Kurylenko), ex-namorada de Mambrú que é enviada até o local para determinar a necessidade do grupo continuar trabalhando por lá.

Um Dia Pefeito - Cena 3Aranoa contrapõe o idealismo ao comodismo para nos fazer pensar (eu, que sempre fui partidário de tomar iniciativa o tempo todo, ultimamente tenho percebido que, ás vezes, é bastante válido simplesmente não fazer nada e deixar as coisas seguirem seu curso natural), mas o faz de forma bem leve, tanto que Um Dia Perfeito, apesar de seu tema envolvendo conflitos de guerra, está mais para uma comédia do que para um drama. A tensão entre Mambrú e Katya, bem como a seriedade de Damir, garante umas boas risadas, mas o humor que sobressai é mesmo o do Tim Robbins. Sei que sou suspeito para falar, visto que já declarei abertamente o meu amor pelo trabalho dele, mas o cara está simplesmente sensacional no papel de tiozão porra louca. Robbins, com um sorrisão no rosto, faz coisas insanas como acelerar com o jipe rumo a uma vaca que pode esconder uma mina terrestre e, cena após cena, faz piadas pontuais com todos os personagens, das quais a melhor talvez seja aquela em que ele brinca com o fato de Damir carregar fotos da namorada pelada na carteira.

Um Dia Perfeito, que conta ainda com um trilha sonora cheia de músicas de rock e com uma fotografia acima da média, foi perfeito para coroar o término das minhas férias, para eu conhecer o Belas Artes e também para que eu pudesse repensar uma ou duas coisas sobre responsabilidades e esforços desproporcionais. Regresso agora para a rotina do dia a dia feliz por tudo que vi e vivi nas últimas semanas, ansioso para continuar descobrindo e compartilhando com vocês dicas de filmes como este, que nos tornam pessoas melhores e mais leves.

Parabéns, Cine Belas Artes: que o poder da beleza e do exemplo advindo da arte continue dando-lhe forças para existir e encantar o público!

Um Dia Pefeito - Cena 2

Celular (2016)

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CelularPronto, voltei!🙂

Depois de um cansativo primeiro semestre trabalhando em dois empregos, pude finalmente sair de férias e descansar. Aproveitei a oportunidade para realizar um sonho antigo: após 30 anos de existência nesse mundão velho, finalmente consegui transcender os limites territoriais do nosso querido Brasil e, junto da minha esposa, passei uma semana incrível sob o calor escaldante do México.

Programei a viagem de modo que, entre tacos, ruínas maias e praias paradisíacas, sobrasse uma tarde livre para ir ao cinema. Sei que, como um amigo brincou em uma foto que postei no Facebook, “ninguém vai para Cancún para assistir filmes”, mas, cinéfilo que sou, não pude resistir à vontade de conhecer uma sala de projeção de outro país. Na minha bagagem, mais do que as tradicionais bugigangas (eu comprei um apito de coruja, caras rs), eu queria trazer experiências, e consegui uma bem interessante vendo esse Celular por lá.

O áudio do filme estava no idioma original, em inglês, e as legendas estavam em espanhol. Mesmo sem dominar a língua, não é difícil extrair o significado geral, por assim dizer, de uma frase escrita em espanhol, certo? Muitas palavras são iguais ou parecidas. O que pega mesmo, principalmente para a leitura dinâmica que precisa ser feita para as legendas (acompanhando simultaneamente a imagem e o texto) são os falso cognatos. Basta confundir uma palavra e pronto, tu perde um diálogo inteiro. A solução que encontrei para esse “problema” foi confiar no meu inglês e concentrar a atenção nos diálogos, deixando as legendas como último recurso para compreender o que estava sendo falado. Até que deu certo: fiquei perdido em pouquíssimos momentos, de modo que considerei a experiência bastante positiva. Sobre o cinema em si (rede Cinépolis), acrescento ainda que fiquei impressionado com a estrutura do mesmo (cadeiras hiper confortáveis, tela gigante) e satisfeito com o valor do ingresso: num baita de um domingão, paguei 44 pesos (cerca de 11 reais) por um ingresso, sendo que por aqui costuma ser pelo menos o dobro disso.

Celular - CenaFeitas estas considerações, vamos ao filme. Num episódio da segunda temporada do Family Guy, o MacFarlane brincou com o fato do Stephen King utilizar premissas bizarras para seus livros (o trecho pode ser visto clicando aqui). Não pude deixar de lembrar dessa piada após ver os primeiros 10min de Celular, que é baseado em um romance do escritor. Eis o que acontece: Clay Riddell (John Cusack) desembarca de um avião e vai para o saguão do aeroporto. O personagem, que é uma espécie de artista gráfico, está feliz por ter conseguido fechar um bom contrato com uma empresa de jogos. Clay liga para a ex-mulher para contar as novidades e para falar com o filho, mas o celular dele acaba a bateria e a ligação cai. Eis então que surge um forte zunido e …. TODO MUNDO QUE ESTÁ FALANDO NO CELULAR TRANSFORMA-SE EM ZUMBI!

Assim, sem mais nem menos. É meio que uma tradição de histórias de zumbi não revelar a origem do problema e, sinceramente, eu até acho isso legal, mas não deixa de ser bizarro e até mesmo engraçado a forma abrupta como as coisas acontecem por aqui. O figurante está lá, falando tranquilamente no celular, aí rola o barulho, ele começa a ter umas convulsões, coloca sangue pela boca e pelos olhos e já sai mordendo e matando outras pessoas. Esse começo, aliás, lembra as grandes obras do chamado terrir de diretores como o Sam Raimi, filmes de terror onde o exagero do gore acaba ganhando traços cômicos: tão logo fiquei chocado com a exibição de vísceras e ossos quebrados, comecei a dar risada da ferocidade animalesca dos zumbis e das caras de susto do Cusack.

Celular - Cena 2Na sequência, Clay une-se a outros sobreviventes, dentre eles Tom McCourt (Samuel L. Jackson) e foge do aeroporto. Os zumbis, que são bastante rápidos, perseguem o grupo e continuam fazendo vítimas. Clay convence Tom a ajudá-lo a procurar por seu filho e sua ex-mulher e então os personagens começam a peregrinar através dos destroços do que outrora fora uma cidade civilizada. O perigo constante obriga os personagens a esconderem-se em vários locais e fazerem alianças com outros sobreviventes, como a Órfã feiosa Alice (Isabelle Fuhrman).

Acredito que a intenção do King com esse Celular seja criticar o uso exacerbado que fazemos do aparelho nos dias de hoje. Para comprovar a força da analogia do escritor que compara os usuários a zumbis, basta sair na rua e observar as pessoas andando e/ou dirigindo completamente imersas nos conteúdos exibidos na tela de seus smartphones. Eu, que me considero bastante viciado em redes sociais e outros aplicativos, não deixei de fazer a auto crítica que a história estimula e estou tentando diminuir progressivamente o uso do aparelho e dar mais atenção para as pessoas e coisas ao meu redor. Não quero ser visto como um zumbi cultuador de uma antena de companhia telefônica rs

Celular - Cena 4O começo de Celular é estranho mas bom, a ideia de um apocalipse zumbi provocado por telefones é divertida e há umas duas cenas realmente legais aqui (estou pensando na queima de zumbis no estádio e no sujeito paranoico cheio de explosivos), mas no geral eu achei o filme bastante cansativo. O diretor Tod Williams gasta muito tempo com diálogos e divagações pouco interessantes (cala a boca, Samuel! rs) e não preocupa-se em explicar melhor aspectos importantes da história, como a relação do personagem fictício criado por Clay com os eventos do filme. Quando Celular termina, com AQUELA música tornando AQUELE final ainda mais bizarro, fiquei com a sensação de ter visto algo bastante diferente, mas não necessariamente algo bom.

Es una película extraña rs

Celular - Cena 3

Halloween 6: A Última Vingança (1995)

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Halloween 6 - A Última VingançaAntes do texto, seguem algumas “curiosidades” sobre a produção desse Halloween 6: A Última Vingança que julguei interessante compartilhar com vocês para reforçar o que será dito na sequência.

Obs.: As informações foram retiradas da página do filme no IMDB e a tradução, não necessariamente literal, fui eu mesmo que fiz.

  • A maioria do elenco e da equipe de produção renegaram o filme. Em entrevistas, eles declararam que o estúdio, os produtores e o diretor interferiram de forma ridícula no processo, o que resultou em um filme com edição e direção medíocres.
  • De acordo com a Daniella Harris (Nota: atriz que aparece no Halloween 4 e 5), a plateia do cinema estava vaiando quando a mãe dela foi assistir o filme.
  • Provocando raiva na maioria do elenco e da equipe de produção, várias refilmagens e edições foram feitas. Devido a essas mudanças, muitos deles juraram nunca mais participar de outro filme da série Halloween.
  • Muitas das cenas do Donald Pleasence (Nota: o protagonista) foram cortadas do filme porque o diretor Joe Chappelle achou-o “tedioso”.
  • O roteiro teve 11 versões diferentes.
  • Muitos membros da equipe de produção disseram que o diretor Joe Chappelle declarou desde o início que ele não gostava dos filmes da série Halloween. Segundo ele, o único motivo para ele ter envolvido-se com o projeto era conseguir um contrato de mais 3 filmes com a produtora (Miramax).

Fiz questão de procurar o contexto em que o filme foi produzido e transcrever aqui as informações que encontrei para que vocês, ao lerem a resenha, não fiquem com a impressão que estou exagerando nas críticas ou que estou de mau humor. Halloween 6: A Última Vingança é uma bosta completa. Só não digo que ele é o pior filme da série que vi até agora porque esse posto permanece sendo do Halloween 3 (um longa que, além de não ter o Michael Myers, tem aquela musiquinha irritante da Silver Shamrock), mas ainda sim trata-se de um derivado extremamente dispensável da história criada pelo John Carpenter.

Halloween 6 - A Última Vingança - CenaAqui, conforme o título original sugere (The Curse of Michael Myers ou A Maldição de Michael Myers), a proposta era contar uma história que fizesse os tradicionais links com os filmes anteriores e, ao mesmo tempo, explicasse como o assassino de Haddonfield adquiriu seus “poderes”. Sabe aquelas habilidades legais como teletransporte, localização aprimorada, imunidade e regeneração infinita que todo vilão de filme de terror possui? O Myers conseguiu as dele após ser amaldiçoado pela Maldição de Thorn, um ritual milenar celta (!!!) que visa oferecer sacrifícios de sangue para garantir a paz na sociedade (!!!²). A única forma de ele ficar livre da maldição é matar todos os membros de sua família (!!!³).

E, fazendo uma rápida recapitulação mental, quem sobrou vivo da família do Myers após 5 filmes? Só a sobrinha dele, Jamie (J.C. Brandy) aquele menininha que termina o Halloween 5 gritando por saber que, mais cedo ou mais tarde, o titio voltaria com sua faca gigante para atormentá-la. Teoricamente, portanto, bastaria o Myers matá-la para ficar livre da maldição, certo? Calma lá, não é tão simples assim. Eis o que acontece:

Halloween 6 - A Última Vingança - Cena 2

  • Jamie é sequestrada, ainda criança, pelo misterioso homem da capa preta do filme anterior. Esse homem tem poderes sobre o Myers. Anos depois. esse homem faz com que o Myers estupre e engravide Jamie em um ritual demoníaco. Dessa perversão, nasce o bebê Steven.
  • Jamie foge do cativeiro levando Steven. Ela liga para uma estação de rádio de Haddonfield e avisa que Myers está voltando. Movimento natural, ninguém acredita nela. Antes de ser localizada e atacada por Myers, ela esconde Steven dentro do banheiro de uma estação de ônibus.
  • O homem da capa preta precisa de Steven para realizar o ritual no qual ele passaria os poderes de Myers para outra pessoa. Junto com o assassino, ele vai para Haddonfield no dia de Halloween procurar pela criança, mas o bebê é encontrado primeiro por Doyle (Paul Rudd, o Homem Formiga, em seu debut cinematográfico), um homem que tornou-se obcecado por Myers após sobreviver a um ataque dele no passado.
  • No meio dessa confusão toda, está um cansado Dr. Loomis (Donald Pleasence) em sua eterna e inglória tentativa de conter Myers e Kara (Marianne Hagan), uma mulher que mora na antiga casa do assassino e cujo filho, Danny, é o escolhido do homem da capa preta para receber a maldição.

Halloween 6 - A Última Vingança - Cena 3Achou confuso? Acredite, eu me esforcei bastante para sintetizar da forma mais simples e direta possível o que vi, mas a grande verdade é que o roteiro de A Última Vingança é um desastre completo. Não por acaso, como listado lá no começo da resenha, reescreveram a história incríveis 11 vezes na tentativa de dar coerência para o material, mas ainda assim o resultado é um filme caótico no sentido mais pejorativo da palavra. A relação do culto celta com o Sanatório Smith’s Grove é forçada, as ligações com os filmes anteriores (feitas principalmente com os personagens Kara e Doyle) não são suficientemente explicadas e a sequência final, além de praticamente ininteligível (como o Donald Pleasence morreu após o término da produção, as tais refilmagens feitas sem ele ficam bizarras), é ruim, frouxa. Dá vontade de vaiar mesmo.

Mesmo com todos os buracos do roteiro e problemas da produção, Halloween 6: A Última Vingança poderia ter dado certo. Sendo bem sincero, os slasher movies (gênero do qual a série faz parte) não são conhecidos por seus roteiros complexos e/ou coerentes. O Halloween 4, por exemplo, tem uma história extremamente básica e é um bom filme. Não dá para esperar algo legal, porém, de um diretor que não gosta da franquia e que trabalhou apenas por obrigação, desrespeitando tanto a equipe de produção como os fãs. Não se faz um Halloween sem a tradicional e divertida abertura com a abóbora. Não se faz um Halloween achando o Donald Pleasence “tedioso”. Não se faz um Halloween com várias mortes (talvez seja o filme que o Myers mais trabalhou até agora), porém todas genéricas e esquecíveis.

Depois desse filme, o diretor Joe Chappelle assinou o contrato que ele queria, dirigiu alguns filmes irrelevantes (ou será que alguém aí é fã do CONHECIDÍSSIMO Caçada Virtual?) e acabou terminando no semi anonimato das séries de TV. Bem feito.

Halloween 6 - A Última Vingança - Cena 4AVISO AOS LEITORES: Pessoal, depois de um semestre bastante cansativo, estou finalmente saindo de férias. Viajo amanhã e volto só no começo de agosto, de modo que o blog deve ficar pelo menos uns 15 dias sem atualizações. Não desistam de mim rs

Abraços

Rocky II: A Revanche (1979)

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Rocky II - A RevancheToca a música: PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM PAM

Entra o título: R    O    C    K    Y   II

A tela escurece um momento, o barulho da multidão é ouvido e então as luzes de um estádio em polvorosa acendem-se para nos levar de volta até o clímax de Rocky: Um Lutador. Contra todas as expectativas e probabilidades imagináveis, Rocky (Sylvester Stallone) consegue manter-se de pé no ringue após 15 rounds de uma luta espetacular contra Apollo Creed (Carl Weathers), o campeão mundial de boxe dos peso pesados e, mesmo que os juízes deem a vitória para Apollo, é o “Garanhão Italiano” quem deixa o local ovacionado pela torcida. Rocky saiu do anonimato e conquistou seu momento de glória, agora resta saber se ele tem o que é preciso para permanecer no topo.

Eu já havia planejado assistir Rocky II: A Revanche em algum momento deste ano, de forma que acabasse de uma vez por todas a minha vergonha por não ter assistido todos os filmes da série, mas eu não pretendia assisti-lo agora. Se adiantei meu plano, o “culpado” é este bebê. Sério, abram o link e assistam. Viram que menino foda? Me mandaram este vídeo esta semana e, do mesmo jeito que a cena de treinamento do Rocky empolgou o bebê (imagem quantas vezes ele assistiu isso até decorar todos os movimentos rs), também fiquei empolgado com o que vi e decidi ver o filme imediatamente. Em se tratando de poder motivacional, não me canso de ficar impressionado com o alcance e a atemporalidade da série idealizada pelo Stallone.

Terminada a luta, Rocky e Creed são encaminhados até o hospital para tratarem seus ferimentos. Assustado por quase ter perdido o cinturão para um amador, Creed diz que não haverá uma revanche, porém ele começa a mudar de ideia quando a imprensa questiona o mérito de sua vitória. Já Rocky, após ter tido o olho seriamente danificado pelos socos de Apollo, não quer mais saber de lutar: chegou a hora de ele casar-se com Adrian (Talia Shire) e ter uma vida sossegada aproveitando o dinheiro e a fama que a luta garantiram-lhe. O sucesso, no entanto, mostra-se uma experiência passageira e logo Rocky verá-se obrigado a sair do ostracismo e voltar a fazer aquilo que ele faz de melhor: contar piadas lutar boxe.

Rocky II - A Revanche - Cena 3Quando eu tiver um filho, também pretendo colocar ele para assistir A Revanche. É claro que eu ficarei extremamente orgulhoso se o moleque aprender a fazer todas aquelas estripulias (meu momento favorito é quando o menino deita no chão para fazer as flexões rs), mas o que eu quero mesmo é que a educação dele englobe o tipo de exemplo que o Stallone, que dessa vez escreveu e dirigiu o filme, mostra aqui: o verdadeiro mérito não está em vencer uma vez, mas sim em continuar encontrando forças para lutar e recomeçar quando for preciso.

Em Rocky: Um Lutador, o Rocky precisa encarar vários desafios antes de entrar no ringue para brigar pelo título. Além de enfrentar a desconfiança de seu técnico (Mickey, interpretado pelo Burgess Meredith) e o menosprezo da imprensa e do próprio Apollo, que tratam-no como uma piada, Rocky ainda tem que lidar com condições de treinamento bem inferiores a de seu adversário e com uma situação financeira precária. A vontade e o poder de superação do personagem não são suficientes para que ele vença a luta, mas mesmo assim ele sai do confronto de cabeça erguida e com a certeza de que ele deu o seu melhor. O público e os comentaristas, reconhecendo o esforço, transformam-no em um herói. Moralmente, Rocky venceu. Mas e o dia seguinte?

Rocky II - A Revanche - Cena 2Tão logo sai do hospital, o personagem é abordado por um agente que quer contratar-lhe para aparecer em uma série de comerciais. A recém adquirida popularidade do boxeador, ele diz, pode ser utilizada para fazer uma grana fácil com marketing. Rocky, porém, não quer pensar nisso por enquanto. Feliz consigo mesmo, ele só quer aproveitar o momento e fazer tudo aquilo que ele não conseguira fazer quando era pobre. Assim sendo, ele pede Adrian em casamento (em um zoológico, numa cena muito engraçada envolvendo um tigre rs), compra um carro (que ele não sabe dirigir), uma casa e um monte de bugigangas (dentre as quais destaco um casaco HIPER estiloso com um tigre bordado nas costas). É um homem simples. O tempo passa, o dinheiro da luta vai acabando, as contas continuam chegando e pronto, Rocky precisa voltar a trabalhar para sustentar a si mesmo e a esposa, que está grávida. Claro que um homem que lutou contra o campeão do mundo não terá dificuldades para conseguir um bom emprego, certo? Não é bem isso que acontece, nem na ficção, nem na vida real.

Rocky: Um Lutador falava sobre a importância de darmos o nosso melhor para superarmos os problemas que a vida coloca em nosso caminho. Rocky II: A Revanche complementa esta mensagem dizendo que não basta esforçar-se para vencer uma vez. A luta é diária. Rocky realizou um feito memorável quando enfrentou Apollo, mas ele não poderia viver o resto de seus dias sentados sobre os louros dessa “vitória”. Sem nenhum outro tipo de formação ou habilidade que não fosse a de lutar, ele vai rapidamente do céu ao inferno e precisa aceitar empregos ruins que não condizem com a posição que ele alcançou. Para piorar, ele é despedido e vê a mulher, grávida, trabalhando para sustentar a casa. É aí, no fundo do poço, que ele parece aprender que “não importa o quão forte você bate, mas sim o quanto você consegue apanhar e seguir em frente” e, com o apoio de Adrian, reencontra toda a força que ele precisava para aceitar o desafio de Apollo para uma revanche.

Rocky II - A Revanche - Cena 4Fora a recapitulação da abertura, A Revanche tem apenas uma cena de luta, que é o esperado confronto entre Rocky e Apollo que fecha o filme. É mais do que o suficiente: o drama do simpático lutador para continuar sendo alguém relevante segura muitíssimo bem a história e, no final, a gente só relaxa e vê o cara treinando e trocando uns sopapos com o Apollo em cenas divertidíssimas e muito bem coreografadas. A cena do treinamento, aliás, é o tipo de coisa que me deixa verdadeiramente emocionado: como gosto de correr, fiquei empolgadíssimo vendo o Stallone subindo as escadas do Museu de Arte da Filadélfia acompanhado por aquela multidão de crianças. Resultado: coloquei Gonna Fly Now na playlist, saí para correr e consegui percorrer 15kms rs

Filmes como A Revanche, que contam histórias de esforço e superação, sempre terão um espaço no meu coração e neste blog. Espero, um dia, poder usá-lo para mostrar para alguém que vale a pena sair correndo por aí, dia após dia, enfrentando tudo e todos.

Rocky II - A Revanche - Cena

Stalker (1979)

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StalkerNo The Film Book, o escritor Ronald Bergan descreveu o trabalho do diretor Andrei Tarkovsky nesse Stalker da seguinte maneira:

“Tarkovsky approached a different kind of science fiction in Stalker (1979), which tells of a nightmarish journey, through a forbidden wasteland, undertaken by the shaven-headed stalker of the title and his two companions. Shot in eerie sepia, the film haunts the mind long after it ends.”

“Tarkovsky aproximou-se de um tipo diferente de ficção científica em Stalker (1979), o qual fala de uma jornada de pesadelo, através de uma terra devastada e proibida, empreendida pelo perseguidor de cabeça raspada do título e seus dois companheiros. Filmado em uma sépia esquisita, o filme assombra a mente muito tempo após ele ter terminado.”

A priori, um filme que tem um “perseguidor da cabeça raspada” é um filme potencialmente interessante (rs), mas não foi por isso que eu procurei Stalker para assistir. Desta vez, eu queria mesmo era ampliar os meus conhecimentos de cinema e ver uma produção realizada na extinta União Soviética, território cuja filmografia eu ainda não havia explorado. Não posso dizer que a experiência foi fácil ou agradável, mas, de fato, encontrei alguns diálogos aqui que estão me fazendo pensar até agora.

No mundo sombrio de Stalker, a Terra foi atingida por uma chuva de meteoros, o que criou um território devastado e proibido chamado Zona. Cercada e protegida pelo governo, a Zona começa a atrair curiosos de todos os cantos devido a sua fama de realizar os desejos daqueles que ousam desbravá-la. Interessados em conhecer o local, um escritor (Anatoliy Solonitsyn) e um professor (Nikolay Grinko) contratam um stalker (Aleksander Kaydanovskiy) para guiá-los.

Stalker - Cena 4Aqui, o termo stalker não tem essa conotação moderna relacionada a alguém que persegue e atormenta suas vítimas. O personagem principal é um guia, uma pessoa que conhece os segredos da Zona e que, portanto, é capaz de conduzir outras pessoas através dela. Como ele adquiriu esse conhecimento e as incursões passadas dele no local, bem como a vida pregressa do escritor e do professor, são informações que o filme apenas sugere: em Stalker, Tarkovsky abre mão de desenvolver individualidades para falar de temas maiores e mais universais, como a moralidade o sentido da vida. Trata-se, para o bem e para o mal, de um filme construído quase que unicamente em cima de diálogos.

Conforme dito lá no terceiro parágrafo, Stalker é “filmado em uma sépia esquisita”. Nos 15 primeiros minutos, não há diálogos. A única ação presente em todo longa é um tiroteio horroroso que me fez mudar a minha opinião sobre a mira ruim dos Stormtroopers rs A união de todos esses elementos foi mortal e, quando vi, já havia passado uma hora do filme e eu não havia entendido absolutamente NADA. Completamente entediado, pensei seriamente em continuar assistindo daquele jeito mesmo e, no final, detonar o trabalho do diretor. A tentação foi forte, mas aí coloquei a mão na consciência e achei melhor voltar o filme até o início e rever tudo. Foi o que fiz.

Stalker - CenaDe fato, Stalker não é fácil de ser assistido nem quando você está disposto a concentrar-se totalmente nele. Tal qual alguns livos da literatura russa que li (Memórias da Casa dos Mortos, do Dostoiévski, por exemplo) a narrativa concentra-se mais nos sentimentos e questionamentos dos personagens do que no desenrolar dos fatos. Assim sendo, o trio formado pelo stalker, pelo professor e pelo escritor passam uns 80% do filme conversando sobre temas diversos. O formato em si não é um problema (o Antes do Pôr-do-Sol é todo assim e eu adoro ele), mas a apreciação dele depende muito da afinidade do público com o que está sendo falado. Se você gosta de divagações existenciais e filosóficas, pode ser que tu goste. Se não gosta, tu ficará cerca de 2h40min vendo 3 pessoas andando por ambientes sujos, escuros e melancólicos enquanto conversam sobre coisas pelas quais tu não nutre interesse. Provavelmente, ninguém terá uma opinião morna sobre Stalker: ou tu amará por identificar-se com os temas ou morrerá de tédio assistindo.

Eu não gostei. O contexto de ficção científica é legal (sugerem, por exemplo, que o protagonista é um alienígena) e a fotografia que muda conforme o estado emocional dos personagens também é admirável, mas o restante, incluindo os longas planos sequência que mostram o trio andando no meio do mato e em túneis, é MUITO cansativo.

Stalker - Cena 3Todo caso, eu disse-lhes que alguns diálogos me fizeram pensar. Eis um deles:

_ Escritor: Um homem escreve porque ele é atormentado, porque ele duvida. Ele precisa constantemente de provar para si mesmo e para os outros que ele vale alguma coisa. E se eu soubesse, com toda certeza, que sou um gênio? Por que continuar escrevendo? Por quê?

Já me peguei várias vezes fazendo esse mesmo questionamento. Não raramente, escrever parece um exercício interminável de auto afirmação. Por que, então, continuar me sujeitando a essa “tortura”? Bem… acho que, mais do que provar algo para mim mesmo, meu maior desejo com esse blog é estabelecer conexões com outros fãs de cinema. Compartilhar, como diz a frase lá no topo da página. Sempre que alguém comenta o que escrevo, seja para elogiar, seja para fornecer um outro ponto de vista (como o Marcus fez aqui) fico feliz e vejo que todas as dificuldades do processo da escrita valeram a pena. Esse prazer, Tarkovsky, é mais real e válido do que qualquer divagação pessimista, mas tenho certeza de que tu também sabia disso, né?

Stalker - Cena 2