Be Here Now (2015)

Padrão

Assisti Spartacus ao longo de 2016 e, no início, não gostei muito do que vi. Eu conhecia a história do personagem através daquele filme interminável do Kubrick de 1960 e, na primeira temporada da série, tive a impressão de que o roteiro sobre o escravo que comandou uma rebelião contra o Império Romano foi deixado de lado para privilegiar as cenas de ação e putaria.

Claramente inspirado pelo trabalho conceitual do Zack Snyder no 300, Spartacus começou mal com cenários toscos gerados por CGI, repetidas lutas sangrentas em slow motion e uma porção de homens fortões seminus que conversavam como se estivessem recitando poemas. Todo caso, o roteiro foi tomando corpo ao longo do caminho, os personagens foram tornando-se mais e mais carismáticos (o Gannicus é muito legal) e, quando terminei a quarta e última temporada, bateu aquela tristeza por saber que não havia mais material para ver, ou seja, a série havia superado o início ruim e ganhado o meu coração.

O último episódio, aliás, trouxe uma dose extra de emoção para quem acompanhou as notícias de bastidores de Spartacus. Terminada a história e encerrados os créditos finais, exibiram uma justa e tocante homenagem ao Andy Whitfield, ator que interpretou o protagonista na primeira temporada mas que abandonou a série após ser diagnosticado com câncer. Infelizmente, Andy não resistiu ao tratamento e faleceu vítima da doença no dia 11 de setembro de 2011. Não serei hipócrita e dizer que eu achava o cara um grande ator (além de não ter lembranças dele naquele Gabriel, que é um filme horroroso, acho que o Liam McIntyre encarnou melhor o gladiador), mas ainda assim é sempre estranho e triste quando um rosto conhecido nos abandona. Assim sendo, fiquei bastante emocionado quando terminaram a série mostrando o Andy gritando “I”m Spartacus” naquela que talvez seja a cena mais marcante da produção.

Lembro que, quando o episódio acabou, enxuguei as lágrimas e fui procurar informações sobre a morte do ator. Foi aí que encontrei esse Be Here Now (ainda sem título nacional), documentário no qual a diretora Lilibet Foster conta como a família Whitfield lidou com a doença desde o momento de sua descoberta até o falecimento de Andy. A minha intenção era vê-lo de imediato, mas vasculhei todos os cantos da internet e não tive sucesso na busca. Desde já, fica a dica: se você também procurou e não encontrou (ou se você ficar interessado em assistir após ler esta resenha), saiba que o título foi disponibilizado recentemente na Netflix 🙂

O primeiro ponto que precisa ser comentado é que Be Here Now é mais sobre o Andy Whitfield pai e esposo do que sobre o cara que interpretou o Spartacus. Como a maioria das pessoas conheceram o ator através da série, é perfeitamente natural que o público queira ver cenas de bastidores da mesma bem como saber de que forma a doença impactou as gravações. Ciente disso, a diretora reserva espaço para que o ator Jai Courtney (o Varro da 1° temporada) fale sobre seu colega e mostra cenas de Andy ensaiando e atuando como o personagem, mas na maior parte do tempo o que vemos são cenas do dia a dia da família Whitfield e depoimentos que Andy e sua mulher, a valente Vashti Whitfield, registraram de si mesmos. Tal abordagem pode até deixar alguns fãs frustrados (inicialmente, eu também queria ver mais conteúdo sobre a série), mas o resultado não decepciona ao compor um registro intimista e emocionante dos últimos dias de um homem que precisou encarar a própria mortalidade e preparar sua saída de cena.

Lilibet não dá muitos detalhes sobre o assunto, mas é citado o fato de que Andy já havia enfrentado e vencido outro câncer antes de ser diagnosticado novamente com um linfoma em março de 2010. Dessa forma, o início do tratamento é pouco traumático: ele já venceu a doença uma vez e voltará a vencer. Tendo retornado para sua casa na Austrália após afastar-se das gravações da série, Andy opta então por realizar um tratamento espiritual na Índia antes de iniciar o processo de quimioterapia. Em sua fé, o ator acreditou que a medicina e os conhecimentos milenares do oriente poderiam prepará-lo para o que viria a seguir. Independente da opinião que possamos ter sobre temas como astrologia e medicina alternativa, essa passagem é bastante bonita por dois motivos: 1) Andy recebe a visita do pai na Índia e, juntos, eles visitam lugares fantásticos e andam de moto nas ruas caóticas daquele país. Acredito que isso é o tipo de lembrança boa para um pai guardar do filho. 2) A sintonia entre Andy e sua esposa é muito bacana. Vashti deixa bem claro sua opinião sobre aquela viagem (ela preferia que o marido iniciasse a quimioterapia imediatamente), mas o faz de forma respeitosa e mostra-se disposta a apoiá-lo 100% quando ele decide ir.

Findada a viagem, Andy retorna confiante para casa e inicia o tratamento. É um período difícil e confuso: ao mesmo tempo que os médicos fazem diagnósticos que mostram a remissão do linfoma, surgem notícias desanimadoras sobre a detecção da doença em novas áreas do corpo do ator. Andy demonstra ser um homem forte e de poucas palavras, mas não são poucas às vezes que a câmera capta-o com os olhos cheios de lágrimas após os telefonemas que não trazem as notícias que ele esperava. Vashti é uma fortaleza e doa-se por completo para a situação, desdobrando-se para auxiliar o marido sem deixar os dois filhos de lado, mas quando fica sozinha ela desmorona e fala sobre o medo de perder seu amor. Novamente, a maturidade do casal chama a atenção. Seja nos consultórios escutando que o quadro piorou, seja no dia a dia alegre da família, os dois demonstram uma química fantástica e estão sempre dispostos a ouvirem e confortarem um ao outro. A forma madura como eles discutem um tema espinhoso como a possibilidade real de Andy morrer é algo que todos os casais deveriam aprender a fazer.

Começamos a ver Be Here Now sabendo que ele não terá um final feliz, mas ver Andy lutando contra a doença (e praticamente vencendo-a antes de definhar por completo) nos dá uma falsa sensação de esperança que é completamente destruída pela inevitável confirmação de que o ator perdeu a batalha para o câncer e faleceu aos 39 anos de idade. Felizmente, a diretora teve bom senso e evitou o sensacionalismo, logo a gente não vê nenhum registro em vídeo da família no dia do ocorrido, mas mesmo assim é difícil segurar a emoção quando Vashti narra como foram os últimos momentos ao lado de seu marido. A grande verdade é que ninguém está preparado para perder o amor de sua vida, logo a gente entende perfeitamente o que aquela mulher sentiu e chora junto com ela. Chora muito.

Be Here Now, numa tradução livre, seria algo como “estar aqui agora”. Andy Whitfield tatuou esta frase no antebraço no início do tratamento para simbolizar a importância de aproveitar cada momento como se ele fosse o último. Se até mesmo o forte Spartacus, aquele que venceu o gigante Theokoles e trouxe a chuva de volta, sucumbiu diante de uma doença, é bom que nós, meros mortais assinantes da Netflix, aprendamos com a mensagem de Be Here Now e percebamos a urgência de encararmos a brevidade da vida, de “estarmos aqui agora” e abraçarmos com força cada oportunidade de sermos felizes que tivermos. Afinal de contas, nunca saberemos quando poderemos dar um último beijo na pessoa amada ou quando haverá um quebra molas no caminho. Descanse em paz, Andy.

Kong: A Ilha da Caveira (2017)

Padrão

Por mais que eu goste do macaco brincalhão e quebrador de mandíbulas do Peter Jackson, não dá para negar que aquele King Kong de 2005 é duro de assistir. Ontem, para resgatar a história e fazer as devidas comparações com esse lançamento, coloquei o filme para rodar e lembrei do quão equivocada, por exemplo, foi a escalação do Jack Black no papel daquele cineasta inescrupuloso. Ver o ator, que tem uma carreira sólida em filmes de humor, esforçando-se para soar sério ao dizer “Não foram os aviões, foi a bela que matou a fera” é deprimente. Contribuem ainda para o desastre o início arrastado (Kong, o protagonista, demora mais de uma hora para aparecer em seu próprio filme), os efeitos especiais capengas (o macaco é perfeito, mas aquela correria entre as pernas dos dinossauros, por exemplo, é intragável) e o final acelerado e bobão. O que foi feito daquela mocinha chorosa após a queda do Kong? Nunca saberemos.

Kong escorregando no gelo e sacudindo a neve dos pelos tem lá o seu charme, mas a real é que, quando trata-se de um macaco gigante, a gente quer ver mesmo é o estrago que ele consegue provocar. Cientes disso, os produtores decidiram reencenar a história original do personagem mostrando-o não como um macaco que ri de truques bobos com pedrinhas, mas sim como um ser ancestral gigantesco e poderoso que habita a Ilha da Caveira, território inexplorado e extremamente hostil do Pacífico Sul. Eu gostei demais.

Ambientado na década de 70, o filme do diretor Jordan Vogt-Roberts começa com o pesquisador Bill Randa (John Goodman) tentando convencer um senador americano a investir em uma arriscada missão de mapeamento de uma ilha recém descoberta no extremo oriente. O político não fica lá muito empolgado com a ideia, mas a possibilidade de realizar tal feito antes dos russos (lembrem-se da Guerra Fria) e a disponibilidade de soldados americanos na região (os EUA estavam retirando seus homens da Guerra do Vietnã) pesam a favor de Randa e a missão é autorizada. Junto com o pesquisador, partem para a chamada Ilha da Caveira uma fotógrafa (Brie Larson), um guia (Tom Hiddleston) e um grupo de soldados comandados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson).

Tão logo chegam no local (após um dos voos de helicóptero mais irresponsáveis de todos os tempos rs), a equipe de Randa começa a disparar bombas no solo com a intenção de provocar abalos sísmicos e gerar as leituras necessárias para a pesquisa. No ar, paira uma desconfiança sobre os verdadeiros objetivos da missão. No ar, propaga-se o som da hoje clássica Paranoid do Black Sabbath, que algum soldado de bom gosto coloca para rodar numa caixa de som. No ar, avista-se uma árvore que foi arremessada violentamente de um ponto desconhecido contra um dos helicópteros. Segue-se um verdadeiro massacre das forças do Coronel Packard que, conforme bem observado por um dos poucos sobreviventes, não tinham precedente tático para enfrentar o ataque enfurecido de um macaco gigante.

Kong: A Ilha da Caveira não te faz esperar mais de uma hora para ver a sombra do macaco agarrar uma mocinha e correr com ela para dentro da selva. Ambientação feita e personagens apresentados, o diretor faz questão de deixar claro logo no início que estamos vendo um filme de monstro gigante (e não uma bizarra e trágica história de amor) e nos dá uma cena de ação violenta e empolgante, tal qual deve ser. Cerca de 4 vezes maior do que seu antecessor (31 metros contra 7 metros do Peter Jackson), Kong, que felizmente continua sem pinto e sem cu (deve ser embutido), dizima sem dificuldades os invasores da ilha, local onde ele reina, protege e é venerado pelos nativos como um deus. Coronel Packard, que não havia ficado muito satisfeito com o fim da Guerra do Vietnã, decide então reunir o que sobrou dos seus homens e equipamentos e enfrentar o monstro.

O que vemos aqui, porém, não é apenas um duelo entre homem e besta. Packard acaba recebendo sua oportunidade de ficar frente a frente com Kong, olhar no fundo dos olhos da criatura e utilizar todo o seu pesado arsenal contra ela, mas este é apenas um dos arcos da história, e não é o melhor deles. Repetindo, Kong é um filme de monstro gigante, o que quer dizer que o pacote não estaria completo sem uma boa dose de exageros. Há todo o tipo de aberrações na Ilha da Caveira, desde bisões e aranhas colossais até polvos demoníacos e, claro, os temíveis Escaladores de Esqueleto, figuras grotescas que escondem-se nas profundezas da terra aguardando o momento certo de destronar o macacão de seu posto de macho alfa do lugar. Eventualmente, os personagens humanos também envolvem-se em conflitos com essas monstruosidades (e utilizam espadas japonesas para cortá-las em slow motion no melhor estilo HELL YEAH!), mas são os confrontos devastadores e teatrais entre Kong e essas criaturas que rendem as melhores cenas do filme. O pega pra capar entre o macaco e o Escalador de Esqueleto do final é o tipo de cena que faz a gente pensar “poxa, que legal eu estar aqui, sentado, vendo esta bagaça”.

Quando não está quebrando e explodindo coisas, o diretor fala de forma simples mas correta de ecossistemas (os predadores mauzões também tem o seu papel e importância no equilíbrio das coisas) e nos faz rir. John C. Reilly, que interpreta um piloto que caiu na ilha e lá permaneceu desde a 2° Guerra Mundial, traz o melhor do humor involuntário e há uma piada sobre uma carta que um dos soldados escreveu para seu filho (o querido Billy) que é repetida várias vezes e vai tornando-se mais e mais engraçada a cada repetição. O esmero do roteiro também pode ser percebido nas citações a outros filmes e obras. Marlow e Conrad, nomes dos personagens do Reilly e do Hiddleston, certamente são referências ao escritor Joseph Conrad e seu livro O Coração das Trevas, obra que também inspirou o Apocalipse Now. A belíssima fotografia de A Ilha da Caveira, aliás, em muitos momentos lembra o trabalho monumental do Coppola naquele que ainda é um dos melhores filmes de guerra já feitos (olhem os helicópteros, o sol e o tom laranja na imagem abaixo).

Kong: A Ilha da Caveira é a segunda etapa de um projeto que, em 2020, fará o mundo tremer ao colocar King Kong e Godzilla para trocar uns sopapos no cinema. Antes disso, porém, o Rei dos Monstros japonês ainda retornará mais uma vez às telas para aumentar nossas expectativas com o embate e, conforme pode ser visto na cena pós-crédito, para trazer alguns velhos e famosos inimigos. Quebra tudo, bicharada!

Cinquenta Tons Mais Escuros (2017)

Padrão

Sinto-me feliz. Após um mês de muitas dificuldades e privações, cá estou eu conseguindo digitar com as duas mãos novamente. Fui ao médico ontem pela manhã e, contrariando todo o meu pessimismo, ele disse que já era hora de retirar o  gesso e a tala que eu vinha usando desde o dia do meu acidente. Ainda é preciso calma, algumas sessões de fisioterapia e tempo para as feridas da palma da mão direita fecharem, mas a felicidade de poder voltar a escrever e realizar sozinho tarefas cotidianas (tomar banho, comer, etc) é algo indescritível. Em breve, espero, este pesadelo ficará definitivamente no passado e eu poderei lembrar desses dias tenebrosos apenas para agradecer todo o carinho e apoio que recebi da minha família, amigos e da minha querida esposa.

Semana passada, tão logo eu e a Renata saímos da sessão do Logan, entramos em outra sala para assistir este Cinquenta Tons Mais Escuros. Isto foi um erro em todos os sentidos. Levando em conta nossa condição física, foi um erro porque ela precisou ficar sentada durante quase 4 horas (tempo somado dos dois filmes) num dia que o joelho dela estava bastante dolorido. Também foi um erro porque, após ver a despedida magistral do Wolverine, assistir um soft porn ruim assemelhou-se a sair dos Jardins do Éden e cair direto no Vale dos Ventos, Segundo Círculo do Inferno dantesco onde agonizam aquelas pessoas que, em vida, deixaram-se levar pela luxúria. Cinquenta Tons Mais Escuros não só repete todos os muitos erros de seu antecessor, o insosso Cinquenta Tons de Cinza, quanto volta a deixar claro que, se você tem mais de 18 anos, você não é o público alvo desta adaptação cinematográfica da obra da escritora E. L. James. Eu, que já completei 31 primaveras e não gosto de abandonar nada pelas metades, voltarei ao cinema para assistir a conclusão da história, mas o ânimo é zero depois do que vi nesta continuação.

Aqui, até mesmo para justificar o “por que raios eu fui ver este troço”, acho justo repetir algo que eu disse quando resenhei o Cinquenta Tons de Cinza. Antes de qualquer coisa, eu gosto de cinema. Mesmo que eu não tenha condições de assistir tudo que é lançado (alguém tem?), procuro ver a maior quantidade de filmes possíveis, e isso inclui desde o “novo do Scorsese” até o “blockbuster bafo sobre fodelança sadomasoquista”. É bastante confortável, principalmente devido a falta de tempo, dar atenção somente para trabalhos ligados a cineastas já consagrados e/ou para títulos que receberam boas resenhas, mas eu ainda gosto de ter uma visão ampla do que está sendo produzido atualmente e, as vezes, isso implica ir assistir algo mesmo quando todos os meus instintos me dizem para não ir.

Todo caso, eu fui e vi uma história que começa tão mal quanto a anterior havia terminado. Anastasia (Dakota Johnson), que havia afastado-se do bonitão Christian Grey (Jamie Dornan) após descobrir a extensão de suas peculiaridades sexuais, procurou superar o término do relacionamento enfiando a cara no trabalho. Agora ela é uma competente assistente numa editora de livros e, quando tem algum tempo livre, sai para beber com os amigos e para passear. Certo dia, enquanto visitava uma exposição de fotografias de um amigo, Anastasia surpreende-se não somente com o fato de que o tal amigo havia feito vários quadros com fotos dela quanto com a notícia de que um comprador havia arrematado todas as obras em que seu rosto aparecia. Não é nenhuma surpresa que o comprador é o galante Christian Grey, que surge logo em seguida pedindo para que a moçoila dê-lhe uma segunda chance.

E Anastasia dá. E Christian, que promete aceitar um “relacionamento baunilha” (menos foder, mais fazer amor) para agradar sua amada, abre a carteira e começa a mima-la com roupas caras, joias e celulares. Como pontos de conflito, a trama traz a possessividade e o ciúme de Christian atrapalhando a vida profissional de Anastasia, a eterna indecisão da moça, que ora quer experiências sadomasoquistas, ora não, e a inclusão da personagem Elena (Kim Basinger), a milf que ensinou o Sr. Grey a foder e que ainda exerce uma estranha influência sobre ele.

Dar, foder, fazer amor. Falou na série Cinquenta Tons de Cinza, falou em sexo. As pessoas postam comentários safadinhos no Facebook quando referem-se ao filme e, dentro da sala do cinema, imperam as risadinhas, suspiros e exclamações quando Anastasia e Christian começam a se pegar, mas a verdade é que o conteúdo sexual do filme é extremamente meia boca. Talvez por visar mesmo um público mais adolescente, o diretor James Foley abre mão de cenas de nudez frontal e sempre envolve o sexo e os elementos do sadomasoquismo em contextos humorísticos. Christian introduz esferas na vagina de Anastasia e, nas cenas seguintes, todo mundo ri dos closes que mostram as caras e bocas que ela faz para conter o tesão na frente de terceiros. Christian masturba Anastasia dentro de um elevador lotado e a gente ri da cara fechada de uma senhora próxima ao casal. Já tive 18 anos e sei que este tipo de conteúdo pode provocar rebuliços internos nessa fase (até porque praticamente tudo provoca rs), mas não acho que Cinquenta Tons Mais Escuros tenha algo a dizer sobre sexo para um adulto casado e com acesso à internet.

Se o sexo decepciona, não é o roteiro esquemático que salva o material. Resumidamente, Anastasia e Christian tem os mesmos problemas que eu e você, caro leitor, temos em nossos relacionamentos. A diferença é a proporção bizarra que esses problemas tomam quando há bilhões de dólares envolvidos no processo. Você sente ciúmes da sua namorada por pensar que o chefe dela está com segunda intenções mas resigna-se por saber que ela precisa do emprego. Christian também sente ciúmes, daí ele compra a empresa da namorada e manda o chefe dela embora. Sua namorada fica preocupada quando você não dá notícias. Anastasia fica preocupada porque Christian sofreu um acidente de helicóptero que está sendo transmitido ao vivo na TV. Sua namorada é independente e gosta de dividir a conta. Anastasia é independente e recusa um cheque de 24 mil dólares. Não dá para ter empatia com pessoas assim (nem com um diretor que faz de uma queda de helicóptero uma cena banal dentro de um filme).

O mistério envolta do passado e dos desejos sadomasoquistas de Christian, ponto central da trama, avança pouco em Cinquenta Tons Mais Escuros. O relacionamento entre os personagens dá o passo lógico em direção ao altar, Anastasia termina a trama um pouco mais determinada e segura de si, abandonando aquela postura passivo-confusa irritante de outrora, e um homem observa tudo das sombras, prometendo complicações futuras para a relação do casal, mas é só.  E é pouco. E é ruim. E não dá tesão. E, ainda que a trilha sonora e o figurino sejam bons e que tenham me dito que o livro é “melhor e mais quente”, não dá a MENOR vontade de conhecer o trabalho da escritora E. L. James com base nisso aqui. Felizmente, se não dividirem o último livro em 2 filmes, falta só mais um.

Logan (2017)

Padrão

“Eu já havia enfrentado muitas situações terríveis antes, e a escrita me ajudara a superá-las – me ajudara a esquecer de mim por pelo menos alguns momentos. Talvez ela me ajudasse outra vez. Parecia ridículo pensar que funcionaria, dado o nível de dor e incapacidade física que eu sentia, mas uma voz no fundo da minha cabeça, ao mesmo tempo paciente e implacável, me dizia (…) que a hora era aquela.”

Em junho de 1999, o Stephen King quase abotoou o paletó de madeira após ser atropelado por um furgão. O escritor estava realizando sua caminhada diária próximo a uma estrada do Maine (provavelmente pensando em novas formas de matar personagens tagarelas) quando foi atingido em cheio por um veículo desgovernado. Dentre outras coisas, o cara teve lesões sérias no joelho, na coluna, nas costelas e no couro cabeludo e precisou operar o quadril, que foi completamente deslocado pelo impacto. Coincidência bizarra, King relatou o ocorrido no Sobre a Escrita, último livro que li antes do meu próprio acidente e do qual retirei o trecho acima.

De fato, após vivenciar um grande trauma e ver tarefas corriqueiras como escovar os dentes transformarem-se em experiências dolorosas, a gente meio que fica uns dias no limbo. Te levam para o hospital para trocar curativos, te levam pra casa. Te levam para almoçar, colocam comida na sua boca (olha o aviãozinho!), te dão banho e parabéns quando você demonstra alguma evolução (coisas complexas como usar um cotonete sozinho). O pior de tudo é que, por mais horroroso que seja abrir mão da própria independência, não há muito o que fazer e a gente vai deixando-se levar. Daí para acostumar-se com a situação é um passo. Felizmente, a tal voz a qual o King refere-se também habita a minha cachola e, no último fim de semana, eu decidi que chegara a hora de reconquistar parte do meu espaço: chamei um Uber e fui ao cinema. Ousado, não?

Não foi fácil. Acostumado que estou a fazer as coisas de forma rápida e objetiva, vi-me na entediante situação de precisar andar bem devagar, tanto para acompanhar minha esposa, que ainda está com o joelho dolorido, quanto para evitar que alguém esbarrasse nos meus braços. Tarefas simples, como inserir o cartão de crédito na maquininha e digitar a senha, transformaram-se em verdadeiras aventuras. A felicidade por ter saído de casa após quase 3 semanas de relacionamento com o Netflix foi acompanhada pela sensação constante de impotência, como se os meus melhores dias houvessem passado e dado lugar a decadência de alguém que viverá o resto da vida na sombra daquilo que um dia foi. Exagero? Talvez, mas, noutra coincidência incrível, Logan, o primeiro filme que vi após o acidente, evoca justamente esses sentimentos de alguém que, consciente de suas limitações, prepara-se para sair de cena após uma última dança.

No ano de 2029, o Logan (Hugh Jackman) ganha a vida trabalhando como chofer. Velho e decadente, ele divide o tempo entre encher a cara e cuidar, com a ajuda do esquisitão Caliban (Stephen Merchant), de um decrépito Professor Xavier (Patrick Stewart). Aparentemente, após os eventos mostrados em Apocalipse, o Xavier foi diretamente responsável por um acidente que não só vitimou vários mutantes como desencadeou uma reação implacável do governo contra os chamados homo superior: os X-Men chegaram ao fim e o nascimento de novos mutantes foi coibido através da manipulação de drogas inibidoras nos alimentos.

Logan sente que o fim está próximo. Não que ele importe-se com isso, visto que praticamente todas as pessoas que ele amou já partiram deste mundo, mas seu fator de cura regenerativo nunca mais foi o mesmo desde que ele recebeu os implantes de Adamantium no Programa Arma X. O metal, ainda que útil, está apodrecendo Logan de dentro pra fora, e sempre que ele envolve-se em uma briga e fica ferido (o que não é lá uma raridade) a morte fica mais e mais próxima.

O Wolverine que o diretor e roteirista James Mangold nos mostra em Logan, portanto, é um personagem bem diferente daquela máquina da fazer sashimi que foi vista no Imortal e nos outros longas da franquia X-Men feitos até agora. Já na abertura do filme, Logan demonstra uma dificuldade incomum para despachar um grupo de bandidos que tentam roubar as rodas da limousine que ele usa para trabalhar. Num aperitivo da violência gráfica galopante que será vista ao longo de toda a projeção, os delinquentes acabam estraçalhados, mas antes de terem seus membros e cabeças arrancados eles conseguem dar uma coça considerável no personagem. Para um cara que já saiu no braço com o Dentes-de-Sabre e com o Magneto, apanhar de ladrões de carro não é um bom sinal.

Essa abordagem de “humanizar” o herói nem sempre dá certo, mas aqui funciona muitíssimo bem. Logan tem muitas e boas cenas de ação (aquela luta noturna na fazenda é um espetáculo), mas o forte do filme é mesmo o conteúdo emocional extraído das fraquezas e defeitos do mutante. Vivendo nas sombras procurando juntar uma grana para comprar um barco e dar no pé com Xavier, Logan não dá a mínima quando uma mulher procura-o pedindo ajuda para levar ela e uma garotinha até a fronteira dos EUA com o Canadá. Nada de heroísmo gratuito para um cara que bebe dia e noite para esquecer as dores do corpo e da alma. Quando agentes do governo demonstram interesse na tal garotinha, porém, Logan aceita os conselhos de Xavier (e uma quantia generosa de dinheiro), e inicia uma longa viagem rumo ao norte do país. Assumindo, pois, o formato de um road movie na maior parte da trama, o roteiro é balizado por diálogos e situações do cotidiano que revelam um Logan cético, estressado e pessimista precisando encontrar forças tanto para realizar uma última missão quanto para cuidar de uma criança e de um velho. Após vários filmes focados na brutalidade do personagem, vê-lo esforçando-se para ter paciência com uma garota brincando com o pino da porta do carro foi algo bem diferente e divertido.

A tal garota, Laura/X-23 (Dafne Keen), revela-se uma máquina de matar tão ou mais implacável que o Wolverine de outrora. Mangold explora bem o contraste entre a inocência esperada das crianças e a capacidade destrutiva da personagem, fazendo-a decapitar seus perseguidores e fatiá-los freneticamente em cenas brutais. Felizmente, Logan redime toda a falta de violência de filmes horrorosos como X-Men Origens Wolverine, mas insisto que o grande trunfo do filme é o conteúdo emocional. Fora o fator “Hugh Jackman” (particularmente, eu nunca morri de amores pelo ator, mas é inegável que a ciência de que esta é a última vez que ele aparecerá como o mutante acrescenta uma certa melancolia ao material), há o humor inocente da X-23 roubando um óculos na loja de conveniência, as piadas e as palavras de sabedoria do Xavier esclerosado e, claro, a conclusão carregada de sacrifício e redenção.

Logan, pela classificação indicativa (para maiores de 16 anos) e pelos temas que aborda, foi feito buscando um público mais adulto, fato que devemos comemorar e agradecer a títulos como Batman – O Cavaleiro das Trevas e Deadpool por mostrarem que é possível fazer filmes de super heróis focando menos nos efeitos especiais e mais no roteiro (que bela sacada aquela metalinguagem com os gibis e as action figures). Foi bom abandonar um pouco o limbo e ir ao cinema ver um filme sobre um cara que, mesmo visivelmente decadente, encontrou forças (ainda que sintéticas rs) para fazer o que precisava ser feito. Tem sido bom usar a escrita para esquecer um pouco da dor e tirar alguns sentimentos ruins aqui de dentro. É bom ver que, aos poucos, as coisas vão voltando ao normal.

Toni Erdmann (2016)

Padrão

toni-erdmannNa madrugada do dia 10 para o dia 11 de fevereiro de 2017, às 04:18, eu tive a minha vida interrompida por um acidente de moto. Eu voltava para casa com a minha esposa após vermos uma banda cover do Audioslave quando passamos em alta velocidade sobre um quebra-molas e fomos parar no chão. O obstáculo foi construído recentemente, logo eu fui me dar conta dele apenas quando já era tarde demais para frear. Eu sei a hora exata do acidente porque o meu relógio, que foi destruído pelo impacto, parou de funcionar para sempre com a queda.

Fiquei triste por perder tão estimado objeto (presente de natal da esposa), mas, felizmente, devo reconhecer que sou um homem de sorte. Apesar de ter rolado no asfalto através de um quarteirão inteiro, a minha moto, uma Fazer 250cc, apenas ralou algumas partes da carenagem. O notebook que estou utilizando agora para escrever este texto escapou ileso. E eu e minha esposa, que fomos arremessado no chão após um impacto à 100km/h, estamos vivos e inteiros.

Logicamente, nós não escapamos ilesos. Ela precisou dar 4 pontos no joelho e ralou bastante uma perna e eu me fodi todo. Quando caí, projetei minhas duas mãos pra frente. Nisso, do lado esquerdo, eu quebrei o dedo mindinho e, apesar da brava resistência do meu finado relógio, ralei pra valer o braço na região próxima ao cotovelo, o que certamente me garantirá uma cicatriz badass e, consequentemente, uma desculpa para mais uma tattoo. Do lado direito, quebrei um osso próximo a junta (me parece que foi a ulna) e vi a pele da palma da mão ser completamente consumida pelo asfalto impiedoso. Resultado: já estou há 20 dias com os braços imobilizados, recebendo comida na boca e sem poder lavar a minha própria bunda, e ficarei assim pelo menos mais 2 semanas.

tony-erdmann-cena-3Experimentei vários estados de espírito desde o acidente. No início, senti desespero e vergonha. Não foi fácil ver minha esposa machucada e saber que, apesar da péssima sinalização do novo quebra-molas (a placa está atrás de uma árvore), eu fui o grande responsável pelo ocorrido. No dia seguinte, após sair do hospital, eu ainda tive que encarar os meus sogros e assumir a bronca. Depois disso veio o medo e as incertezas, visto que eu precisei ser afastado dos meus dois cargos (professor e controlador de voo). Por último, veio a tristeza de ver minha vida paralisada: tive que interromper a cobertura que eu estava fazendo do Oscar, desmarcar as aulas na autoescola (estou tirando habilitação de carro), abandonar academia, corridas no parque, passeios e planejamentos de aula que eu havia preparado para este ano. Minha rotina era cansativa, mas ser arrancado dela dessa forma foi quase como morrer em vida. Chorei muito no início, mas logo a razão voltou e eu percebi que, mediante o que aconteceu (e, principalmente, a tudo que PODERIA ter acontecido), eu não devo perder mais tempo com lamúrias. Chala Head Chala, não importa o que aconteça, tudo vai ficar melhor!, não é mesmo?

tony-erdmann-cenaTodo caso, tenho certeza que o leitor, apesar de compreensivo, não está interessado em mensagens de superação baseadas no Dragon Ball, certo? Vamos então ao plano de contingência para o blog, comentários sobre o Oscar e, claro, sobre o filme em questão, o alemão Toni Erdmann.

Pessoal, a grande verdade é que, por ora, eu não tenho a mínima condição de manter o blog atualizado. Já retirei alguns curativos e estou com alguns dedos livres, o que me permitiu escrever este texto ao longo de uma tarde inteira ao custo de muita dor e suor, mas não pretendo repetir essa tarefa tão cedo. Eu precisava desabafar, dar uma satisfação para quem visita a página regularmente e resenhar este filme antes que eu me esquecesse do que vi (já fazem mais de 3 semanas), mas paro por aqui. Preciso recuperar minhas mãos e isso demanda repouso.

Sobre o Oscar:

  • Coitados do Warren Beatty e da Faye Dunaway por terem sido escalados para um dos momentos mais grotescos da história da cerimônia. Pessoalmente, o meu favorito era o La La Land, mas entendo que o Moonlight, além de ser muito bom e bem feito, tem muito mais a dizer no contexto político e cultural atual. A vitória foi merecida, porém o êxito ficou maculado pela confusão na hora da entrega da estatueta. Sinceramente, ninguém deveria ser chamado em um palco para agradecer a mãe por algo que não ganhou.
  • Melhor Atriz para a Emma Stone numa categoria que tinha a Isabelle Huppert foi um erro ainda maior do que premiar o Casey Affleck em detrimento do trabalho monumental do Denzel Washington no Cercas, que por aqui sairá com o título tosco de Um Limite Entre Nós.
  • Pô, Academia! Moana é bem melhor do que Zootopia!
  • Nada contra o ótimo Mahershala Ali, mas a curta participação dele no Moonligth, ao meu ver, foi inferior ao que o Michael Shannon fez no Animais Noturnos, filme esse, aliás, que soma-se ao Capitão Fantástico como os grandes injustiçados do Oscar 2017.

tony-erdmann-cena-4Toni Erdmann concorreu e perdeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para O Apartamento. O longa, que foi escrito e dirigido pela alemã Maren Ade, vale-se muitas vezes do bizarro e do ridículo para passar uma válida mensagem contra o estresse e a seriedade excessiva do mundo adulto. Tony Erdmann é o alterego que Winfried (Peter Simonischek) usa para divertir-se e aliviar a tensão de seus conhecidos com piadas e brincadeiras. Após encontrar a filha, a ultra metódica Ines (Sandra Hüller) e perceber que ela não está muito feliz no cargo de executiva de uma grande empresa, Winfried vale-se de seu personagem doidão para tentar ajudar a moça. Acontece de tudo aqui: queijo ralado na cabeça, dentadura falsa, uma cena esquisitíssima de masturbação, interpretação “destruidora” da clássica The Greatest Love of All da Whitney Houston, uma festa com todo mundo pelado e uma fantasia de um gigante peludão que deixaria o Chewbacca com inveja. É um filme longo (2h40min) e estranho, mas também é um filme do qual a gente sai feliz e com novas e boas perspectivas. Em breve, a história ganhará uma versão hollywoodiana, produção que marcará o retorno às telas do grande Jack Nicholson.

Bem, é isso. Desculpem-me por ter falado pouco do filme, mas eu juro que fiz o meu melhor. Se tudo der certo, dentro de uns 20 dias eu tiro o gesso e o restante dos curativos e volto a escrever normalmente. Por enquanto, estou feliz por estar vivo, contente por ter conseguido finalizar este texto (me fez sentir ‘normal’ outra vez) e agradecido por ter alguém ao meu lado que, neste momento de dificuldade, está sendo extremamente paciente, amorosa e me ajudado em tudo. Desculpa por ter tentado voar sem asas, Renata. Obrigado por tudo (prometo dar menos trabalho na hora do banho). Te amo.

tony-erdmann-cena-2

Animais Noturnos (2016)

Padrão

animais-noturnosFaltando pouco mais de 2 semanas para a cerimônia de premiação do Oscar, finalizei a cobertura dos indicados a Melhor Filme com o Lion e agora pretendo focar nas produções que concorrem a Melhor Filme Estrangeiro. Antes, porém, tirei um tempo para ver esse Animais Noturnos, filme que está indicado em apenas uma categoria (Melhor Ator Coadjuvante), mas que uma ou duas pessoas me disseram que foi feito para quem “realmente gosta de cinema”, seja lá o que isso signifique.

Dirigido e adaptado para a tela pelo diretor Tom Ford (o estilista da Gucci que aventurou-se pela primeira vez no cinema com o longa Direito de Amar), Animais Noturnos conta duas histórias paralelas que complementam-se e dão sentido uma para a outra. O tom é sombrio, há experimentações visuais e narrativas e o final é aberto, exigindo que o espectador interprete o que viu e complemente a lacuna deixada pela última cena com suas próprias impressões. Resumindo, não é um filme que o diretor pega na sua mão, mastiga tudo e te conduz através da trama. Ford dá muito (sem trocadilhos), mas exige toda a sua atenção em troca. Eu, que “realmente gosto de cinema”, assisti o filme, fiz o meu dever de casa (busquei informações e pensei sobre o que vi) e agora compartilharei com vocês as minhas conclusões. O texto conterá SPOILERS.

Susan (Amy Adams) está um tanto quanto entediada e solitária no topo do mundo. Ela é casada com um bonitão do queixo quadrado (Armie Hammer), mora numa mansão e é reconhecida e elogiada por seu trabalho como artista plástica, mas a gente olha para ela e não vê exatamente uma mulher feliz. De cara, o diretor nos mostra que Susan sabe que está sendo traída pelo marido, porém o enfeite de testa não parece ser o maior dos problemas aqui.

animais-norturnos-cena-4Certo dia, junto da correspondência matinal, Susan recebe o manuscrito de um livro. Grande é a surpresa da personagem quando, ao verificar o autor da obra, ela descobre o nome de seu ex-marido, Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal). Como o marido atual  está viajando “a trabalho”, Susan começa a ler o manuscrito imediatamente e encontra em suas páginas uma história incrivelmente familiar.

Animais Noturnos, o livro escrito por Sheffield, começa com uma família viajando de carro à noite numa estrada deserta. Num determinado ponto do caminho, Tony (também interpretado pelo Gyllenhaal), que está acompanhado pela esposa (Isla Fisher) e pela filha (Ellie Bamber), depara-se com outros dois carros bloqueando o trajeto. Ele buzina e tenta ultrapassa-los, tudo em vão. Após um período de incerteza, os carros misteriosos cedem passagem, mas em seguida eles começam a pressionar para que Tony vá para o acostamento. Bate daqui, acelera dali, Tony tem seu veículo fechado e é obrigado a parar. Das sombras, surgem Ray (Aaron Taylor-Johnson) e seus dois comparsas, animais norturnos travestidos de gente que atormentarão aquela família de todas as formas possíveis antes de realizarem seu último ato de covardia: após abandonarem Tony no meio do nada, Ray e sua turma estupram e matam mãe e filha com requintes de crueldade.

animais-norturnos-cena-3Chocada, Susan interrompe a leitura várias vezes. A primeira impressão que tive é que ela estava compreensivelmente enojada com a violência do livro, mas há mais. Susan tem dificuldade para encarar Animais Noturnos porque ela reconhece a si mesma nas páginas do livro escrito por seu ex-marido. Pior, ela vê-se no papel de vilã. Não que ela tenha matado ou estuprado alguém, mas o passado de Susan junto de Edward não foi dos melhores. Ao longo do filme, o diretor Tom Ford introduz alguns flashbacks para mostrar como Susan dispensou Edward porque ele não parecia ser um cara arrojado e promissor. Edward até tentou salvar o casamento, mas as coisas degringolaram de vez quando ele flagrou Susan traindo-o com o bonitão do queixo quadrado (pasmem!) logo após realizar um aborto. É ou não é uma danadinha essa Susan?

animais-norturnos-cena-2E por que Susan vê-se como a vilã do livro escrito por seu ex-marido? O que significa aquele final seco e abrupto? Eis as minhas teorias. De certa forma, Susan destruiu a vida de Edward ao trocá-lo por um homem mais rico e viril. Edward teve a sua masculinidade ferida da mesma forma que Tony também teve quando viu sua mulher e sua filha serem levadas por estranhos. Assim sendo, Susan compara sua traição com a brutalidade de Ray e sente vergonha de si mesma. A leitura de Animais Noturnos transforma-se então numa espécie de catarse para a personagem, que estava presa em um casamento bosta e que via o mundo de uma forma grotesca e deformada (o que fica patente nas obras de arte que ela produz). Susan entende o envio do manuscrito como uma possibilidade de reaproximar-se de Edward, reparar o mal que ela lhe fez e, de quebra, livrar-se daquela vida artificial que ela levava, mas não é bem isso que acontece. Na última cena de Animais Noturnos, Susan enche a cara sozinha em um restaurante após Edward não aparecer no encontro marcado entre os dois. Ao meu ver, trata-se de um filme de vingança: Edward transformou toda a raiva que sua ex-mulher lhe passou para produzir sua obra prima, esfregou esse trabalho na cara dela e, no último momento, encontrou forças para fazer o que deveria ser feito, que era dispensá-la de vez de sua vida. Este raciocínio é reforçado pela conclusão do livro, no qual Tony, após uma série de indecisões, descarrega uma arma no peito de Ray.

animais-norturnos-cenaQuem “realmente gosta de cinema” encontrará em Animais Noturnos muitos motivos para apaixonar-se ainda mais pela sétima arte, como a bela fotografia noturna e o poder do diretor de fazer a gente prender a respiração na cena absurdamente tensa da estrada, mas o filme não é indicado apenas para quem curte “filmes cult”. Não tenho dúvidas de que trata-se de um material denso e sombrio e que a sessão exige um pouco de reflexão no fim, porém a qualidade das atuações (o Michael Shannon, que interpreta um delegado no fim da carreira, concorre a Melhor Ator Coadjuvante), bem como a história fluída e os temas humanos que ela aborda (arrependimento e superação), são atrativos que estão ao alcance de todos.

animais-norturnos-cena-5

Lion: Uma Jornada Para Casa (2016)

Padrão

lion-uma-jornada-para-casaQuando eu era criança e estava na pré-escola, a professora me esqueceu dentro da sala na hora do recreio. O sinal tocou, ela enfileirou a molecada e saiu. Eu até cheguei a entrar na fila, mas na última hora lembrei que eu havia esquecido a minha caneca no armário (não dá para ir para o recreio sem uma caneca) e fui pegá-la. Quando me virei, a porta estava trancada e eu estava sozinho. Foram os 15 minutos mais longos da minha vida. Chorei, gritei o nome da professora (e o da minha mãe) e, no fim, tentei chamar a atenção de algum coleguinha através do buraco da fechadura, tudo em vão. Quando a professora voltou, ela encontrou uma mistura confusa de remela, catarro e desespero sentada num canto da sala. Poucos minutos depois, ela me pagou um saquinho de pipoca e um copo de refrigerante no barzinho da escola e pediu para que eu não contasse nada para a minha mãe. Eu nunca contei (se você está lendo isso: desculpa, mãe), mas também nunca esqueci.

Revivi essa lembrança horrorosa numa tentativa de estabelecer um paralelo emocional com a história do pequeno Saroo (Sunny Pawar), mas a verdade é que não há comparação justa entre ficar preso no recreio e ser esquecido numa estação ferroviária. Saroo deveria passar o dia todo deitado em um banco até que o irmão voltasse do trabalho. Ele esperou, dormiu, esperou mais um pouco e nada do cara aparecer. Quando finalmente decidiu sair para procura-lo, Saroo viu-se preso num trem em movimento que levou-o para Calcutá, cidade que fica a mais de 2 mil quilômetros de sua residência. Saroo, um menininho de 5 anos de idade que provavelmente também gostaria de ter uma caneca no recreio, viu-se então sozinho numa das maiores cidades da Índia.

Lion: Uma Jornada Para Casa é baseado em fatos reais e mostra como, 25 anos após descer na estação de Calcutá, Saroo (Dev Patel) partiu em busca de sua família. Entre perder-se e encontrar os seus, Saroo viveu nas ruas, passou fome, foi parar em um orfanato e só teve um lar quando foi adotado por um casal australiano (Nicole Kidman e David Wenham). É uma história essencialmente triste que o diretor Garth Davis conta dando um soco no nosso estômago cena após cena. É válido avisar que você tirará um ou dois ciscos dos olhos durante a sessão.

lion-uma-jornada-para-casa-cenaOs conflitos psicológicos do roteiro tornam-se mais pesados à medida que a trama avança (Saroo, já adulto, deseja reencontrar sua família mas teme que isso cause desgosto nos seus pais adotivos), porém é o início que deixa a gente com o coração apertado. O ator Sunny Pawar é muito bonitinho, do tipo que dá vontade de apertar as bochechas, e é muito ruim vê-lo lutando para sobreviver, gritando no meio de uma multidão que não quer ouvi-lo e que não pode entende-lo (Saroo fala hindi; em Calcutá o idioma falado é Bengali). As coisas melhoram um pouco para Saroo após a adoção, mas antes disso tu precisará vê-lo implorando em vão por ajuda enquanto o trem leva-o para longe de casa (foi aí que a lembrança do primeiro parágrafo bateu forte) e, pior, vê-lo dormindo em cima de um papelão no chão sujo da estação de trem. A impotência do personagem para salvar a si mesmo e a tristeza que pode ser lida nos olhos dele fazem o peito doer e colocam em xeque nossa fé na humanidade.

lion-uma-jornada-para-casa-cena-3O diretor Garth Davis mostra uma Índia pobre, suja e cheia de pessoas dispostas a explorar a inocência alheia, mas, no fim, ele também nos oferece um pouco de pipoca e refrigerante para compensar nossa gastura. O roteiro argumenta que, da mesma forma que existem pessoas ruins capazes de aproveitarem-se da fragilidade do próximo para obterem lucro (em um determinado momento, uma mulher tenta sequestrar/vender Saroo), também há quem pratica a austeridade e acredita num mundo melhor. Eu, que não sou lá um grande fã da Nicole Kidman (na maior parte do tempo, tenho a impressão que ela está atuando com ‘má vontade’), acabei rendendo-me à sinceridade do amor maternal que ela imprime à australiana Sue Brierley, a mulher que mudou o destino de Saroo (e de mais uma criança) ao adotá-lo. Sue e o marido são ricos e oferecem todas as condições para que o personagem cresça em um ambiente saudável. O conforto não faz com que Saroo supere seu passado traumático, mas dá-lhe forças (e recursos financeiros) para iniciar a busca por sua verdadeira família.

lion-uma-jornada-para-casa-cena-2Lion: Uma Jornada Para Casa tem uma história forte, envolvente e emocionante. Temas como a pobreza e o abandono infantil apoiam o roteiro mas não ditam o seu rumo, que privilegia a narrativa clássica, com começo, meio e fim bem definidos, sem grandes digressões, flashbacks e ponderações. Fora o final, que mistura doses cavalares de alegria e tristeza (a revelação sobre o motivo do irmão de Saroo ter abandonado-o na estação é devastadora), não importei-me muito com a fase adulta do personagem. Ele envolve-se com uma garota (Rooney Mara) e vive o dilema de não saber o paradeiro de sua família. É isso, nem ruim, nem fantástico. A parte da infância, no entanto, é espetacular. Apoiado no carisma do garotinho e numa fotografia exuberante (observem a beleza dos raios solares naquela cena ‘das borboletas’), o diretor construiu uma história triste, porém irresistível, que faz a gente lembrar do quão bonito e forte é o amor que une mãe e filho. Lion: Uma Jornada Para Casa concorre a 6 Oscars, dentre eles o de Melhor Filme, e, por mais que ele não deva ganhar nenhum (Melhor Fotografia, talvez?) vale a pena vê-lo para apaixonar-se e torcer pelo garotinho que sorri enquanto carrega pedras para fazer a mãe feliz.

lion-uma-jornada-para-casa-cena-4